Carta das Clérigas e Postulantes da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil 

Porto Alegre, 12 de dezembro de 2017.

Retiro de Clérigas e Postulantes da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB).

À Câmara dos Bispos da IEAB

Ao Conselho Executivo da IEAB

Ao Clero da IEAB

Ao Povo da IEAB

“Eu lhes asseguro que onde quer que o evangelho for anunciado, em todo o mundo, também o que ela fez será contado para que ninguém se esqueça dela.” Mc 14: 9

Saudações em Cristo!

Nós, mulheres ordenadas e postulantes às Sagradas Ordens da IEAB, reunidas em Retiro, nos dias 11 e 12 de dezembro de 2017, nas dependências do Seminário Teológico Egmont Machado Krischke – SETEK, em Porto Alegre/Rio Grande do Sul, com o objetivo de partilhar e compartilhar nossas vidas e ministérios na perspectiva da oração, em benefício mútuo e em prol do Reino de Deus e da IEAB, igreja à qual servimos e amamos, vimos, por meio deste documento, declarar que as muitas histórias e experiências de vidas partilhadas evidenciaram que as reverendas têm exercido seus ministérios com muita eficácia e total dedicação. Essa ação tem ocorrido nas bases, nas esferas do serviço, mas com pouca presença nos espaços decisórios da Igreja, o que tem contribuído para uma situação de violação da equidade de gênero na IEAB.

Diante dessa realidade, entendemos ser necessário e urgente fazer à IEAB as seguintes recomendações:

1. Equidade de gênero nas composições das representações: que as comissões da Igreja sejam formadas de maneira equânime – 50% sexo masculino e 50% sexo feminino – e que essa recomendação seja submetida ao Sínodo que ocorrerá em Brasília, de 30 de maio a 03 de junho de 2018;

2. Publicidade nas decisões: que na agenda provincial, os critérios de escolha e indicações para representações da igreja, em eventos nacionais e internacionais, sejam sempre públicos e disponibilizados no http://sn.ieab.org.br, com base nos critérios de visibilidade e transparência que devem reger os atos da IEAB;

3. Formação: que seja implementado/adotado um programa de formação continuada que possibilite ao clero da igreja, de modo equânime, o acesso a cursos de extensão, acadêmicos ou não, e pós-graduação lato e stricto sensu, que sirvam como ferramenta para atualização do conhecimento e aperfeiçoamento da prática ministerial.

4. Maior participação de lideranças femininas: que ocorra maior valorização das capacidades e potencialidades ministeriais e acadêmicas das mulheres clérigas, postulantes e leigas; que elas também tenham a oportunidade de realizar intercâmbios, sejam convidadas para proferir sermões, ministrar cursos, atuar como assessoras em eventos na igreja, realizar partilhas, enfim, atuar de modo a edificar a igreja e serem por ela edificadas;

5. Saúde: que haja maior apoio às reverendas tanto na dimensão emocional-pastoral quanto médica e que as possíveis debilidades – comum a homens e mulheres e decorrentes do dia a dia pastoral – não lhes sejam imputadas como fragilidade ou fraqueza. Entendemos ser necessário cuidar de quem cuida a fim de que a igreja se mantenha, também, sadia;

6. Enfrentamento à misoginia: que não seja admitido, em hipótese alguma, que a vida íntima de nossas irmãs reverendas e leigas sejam questionadas e expostas, sobretudo, quando tal atitude for uma clara tentativa de descredenciá-las e desqualifica-las para impedi-las de ocupar qualquer cargo na estrutura orgânica da IEAB, sob pena de nos manifestarmos pública e juridicamente contra tais fatos, que afetam diretamente a nossa dignidade enquanto mulheres;

7. Atenção à agenda Feminista: que A IEAB não se cale, mas exerça profeticamente o anuncio de um novo tempo a partir da denúncia da perda de direito das mulheres em nossa sociedade, principalmente no que tange à violência de gênero que, de muitos modos, mata mulheres e meninas, e desrespeita sistematicamente seus corpos e suas almas, a exemplo do que ocorreu com a aprovação do texto principal do Projeto de Emenda Constitucional – PEC 181, clara violação dos direitos humanos e perda de direitos uma vez que a lei em vigência no Brasil permite o aborto legal em caso de estupro, de risco de morte da gestante e no caso de gravidez de feto anencéfalo. Assim, importa-nos que a IEAB assuma o aprofundamento das discussões de Gênero, por entendermos ser uma questão estruturante para a desconstrução dessas culturas.

8. Enfrentamento à violência de gênero contra as mulheres: que a Casa Noeli dos Santos, único equipamento de nossa IEAB, da Rede de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres em todo o Brasil, seja apoiada de forma mais efetiva – tanto pastoral quanto financeiramente – pela IEAB e que suas ações sejam amplamente divulgadas para que possam seguir sendo exemplos de nosso compromisso com o Evangelho de Jesus Cristo, que promove vida plena a todas as pessoas.

Certas de que seremos ouvidas pela igreja da qual somos parte, e à qual dedicamos nossas vidas e onde exercemos nossos ministérios, aguardaremos e acompanharemos os passos da IEAB na busca urgente de caminhos que viabilizem os pleitos aqui apresentados.

Que a Ruah Divina sopre sobre a Igreja os ventos de justiça, paz, justiça e misericórdia e nos sustente em nossas lidas cotidianas.

Em Cristo!

Revd. Carmem Etel Alves Gomes

Revd. Dilce Regina Paiva de Oliveira

Revd. Meriglei Borges Simin

Revd. Marinez Santos Bassotto

Revd. Magda Cristina Guedes Pereira

Revd. Inamar Corrêa de Souza

Revd. Lílian Pereira da Costa Linhares

Revd. Lucia Borges

Revd. Lilian Conceição da Silva Pessoa de Lira

Revd. Lucia Dal Pont Sirtoli

Revd. Tatiana Ribeiro

Revd. Selma Rosa

Revd. Marinez Oliveira

Revd. Elaine Nascimento

Revd. Elineide Ferreira Oliveira

Revd. Claudia Prates

Revd. Maytee de La Paz

Revd. Bianca Daebs

Post. Volnice Almeida

Post. Carmen Suzana Gonçalves Bayon

Nivia Ivette Núñez de la Paz – teóloga

PARA DOWNLOAD: Carta Clérigas e Postulantes IEAB