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  • SNIEAB 8:52 on 12/12/2017 Permalink | Responder
    Tags: Câmara Episcopal, ,   

    Nota de Repúdio da Câmara Episcopal da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil contra a violência policial dirigida às Universidades 

    Santa Maria, 11 de Dezembro de  2017

    E o efeito da justiça será paz, e a operação da justiça, repouso e segurança para sempre. Isaías 32:17

    Uma das instituições que tem sido alvo de um perigoso processo de intimidação na conjuntura brasileira deste governo ilegítimo é a Universidade.

    Por um lado se percebe a sistemática construção de um desmonte orçamentário que compromete indubitavelmente a execução orçamentária de programas de pesquisa e, inclusive a manutenção de serviços básicos nas instituições de ensino superior.

    Além disso, tem sido visível a remoção por critérios políticos de quadros dirigentes que se opõem a este desmonte, em um processo que só encontra similaridade com idênticos processos utilizados no período da ditadura militar.

    Por último, o próprio poder judiciário e a Polícia Federal, sob a justificativa de combate à corrupção, promove espetáculos cinematográficos de condução coercitiva de dirigentes de Universidade sem nenhuma justificativa plausível, em meio a processos investigatórios correndo dentro de uma absoluta normalidade processual.

    Este último episódio ocorrido com dirigentes da UFMG nos preocupa porque há pouco tempo tivemos o cometimento de suicídio de reitor de uma universidade no estado de Santa Catarina devido ao abuso de autoridade cometido pela Polícia Federal em situação de investigação e sem a devida formação de culpa comprovada contra o acusado.

    Nos preocupa a sistemática adoção de práticas que ferem o Estado democrático de Direito que redundam em coerção e quebra do princípio da autonomia das Universidades, que se aplicadas indiscriminadamente criam o precedente para que outras instituições venham ser alvo de de perseguição dos aparelhos investigativos do Estado.

    Pautamos nosso protesto pela defesa dos princípios da racionalidade, impessoalidade, ampla defesa e estrita obediência à garantia da integridade física e psicológica de todas as pessoas, inclusive aquelas que sejam alvos de investigação sem que a formação da culpa esteja materialmente e legalmente concluída.

    O Estado de Direito pressupõe instituições sólidas, livres e onde a justiça seja praticada e aplicada com o predomínio da objetividade, clareza e materialidade. Quando a justiça depender mais de performance midiática de seus agentes estamos toda a sociedade em sério risco.


    Dom Francisco de Assis da Silva, Diocese Sul Ocidental – Primaz da IEAB

    Dom Naudal Alves Gomes, Diocese de Curitiba

    Dom Mauricio Andrade, Diocese de Brasília

    Dom João Câncio Peixoto, Diocese do Recife

    Dom Eduardo Grillo, Diocese do Rio de Janeiro

    Dom Clovis Erly Rodrigues, Emérito

    Dom Almir dos Santos, Emérito

    Dom Celso Franco, Emérito

    Dom Jubal Pereira Neves, Emérito

    Dom Orlando Santos, Emérito

    Dom Filadelfo Oliveira Neto, Emérito

    Dom Saulo Barros, Emérito

     
  • SNIEAB 8:29 on 11/12/2017 Permalink | Responder
    Tags:   

    Comissão começa trabalhos para desenvolver procedimentos globais de proteção para crianças, mulheres e pessoas vulneráveis nas igrejas da Comunhão Anglicana 


    Foto: ACNS

    Os membros da Comissão para uma Igreja Segura se encontraram em outubro no escritório da Comunhão Anglicana em Londres para sua primeira reunião presencial. Buscando tornar as igrejas da Comunhão Anglicana um lugar seguro para crianças, jovens e adultos vulneráveis, foi estabelecida uma comissão internacional que teve seu primeiro encontro presencial no fim de outubro deste ano. A Comissão para um Igreja Segura da Comunhão Anglicana foi criada pelo Conselho Consultivo Anglicano (ACC) em sua reunião do ano passado em Lusaka; em uma das quatro resoluções sobre o tema.

    A comissão foi uma recomendação da Rede para uma Igreja Segura da Comunhão Anglicana[1] – grupo global de clérigos e leigos que emergiu em resposta a preocupação da igreja em diversas províncias da comunhão em que falhas de conduta de clérigos e trabalhadores da igreja tiveram consequências trágicas para aqueles que foram vítimas de abuso, suas famílias e comunidades. A rede, que foi reconhecida pelo ACC em sua reunião de 2012, em Auckland, é um grupo internacional de pessoas comprometidas com o bem-estar físico e emocional e espiritual de todas as pessoas envolvidas em igrejas em toda a Comunhão Anglicana.

    Embora a rede tenha um trabalho contínuo para educar as pessoas sobre abuso e má conduta nas igrejas, e para equipar e apoiar as pessoas que trabalham para tornar suas igrejas seguras, a comissão foi criada com a tarefa específica de identificar políticas e procedimentos de proteção atualmente em vigor nas Igrejas da Comunhão; e desenvolver novas diretrizes internacionais a tempo para consideração pelo Conselho Consultivo Anglicano (CCA) em sua próxima reunião em 2019. Na sua resolução de 2016 que estabelece a comissão, o CCA prevê que as diretrizes serão implementadas “na medida do possível” por cada uma das províncias da Comunhão . Apesar de não ter uma rede de proteção estabelecida a Província do Brasil foi convida a compor a comissão, contribuindo com a experiência Latino-Americana na discussão do tema e ao mesmo tempo, como um desafio para sistematizar práticas que garantam um lugar seguro para nossas crianças, mulheres e vulneráveis.

    O ACC reafirmou o seu apoio[2] à Carta de Princípio para a Segurança das Pessoas nas Igrejas da Comunhão Anglicana e pediu a cada província que informe na próxima reunião do CCA sobre os passos que tomaram para adotá-la e implementá-la. Eles também concordaram em estabelecer um procedimento internacional para a “liberação de informações sobre adequação do ministério”[3] para que as informações sobre a conduta de sacerdotes e trabalhadores da igreja seja compartilhada antes de transferências entre províncias, evitando que pessoas investigadas utilizem transferências como modo de evitar a investigação de queixas. E eles pediram o tema faça parte do programa da Conferência de Lambeth de 2020[4] – o encontro de todos os bispos anglicanos, que acontece em Canterbury.

    O conselheiro sênior Garth Blake, advogado que preside a Comissão para um Ministério Seguro da Igreja Anglicana da Austrália, é o presidente da comissão internacional. Ele descreveu o primeiro encontro da comissão – que ocorreu entre 27 de outubro e 1º de novembro, realizado no escritório de comunhão anglicano em Londres – como “muito encorajador”, dizendo: “nos conhecemos e refletimos honestamente sobre a realidade dos abusos sofridos pelas pessoas, particularmente mulheres e crianças, nas nossas províncias “.

    Durante as primeira reunião presencial, os 14 membros da comissão forneceram informações sobre os abusos sofrido pelas pessoas nas suas próprias províncias e as respostas provinciais para prevenir a ocorrência de abuso e os cuidados prestados a pessoas que foram abusadas. “Em algumas províncias existem políticas e procedimentos estabelecidos”, disse Blake. “Em outras províncias há uma cultura de silêncio que dificulta a divulgação de abusos”. No começo do ano que vem, a comissão começará uma pesquisa em todas as províncias, incluindo o Brasil,  para verificar as políticas e os procedimentos atualmente estão implementados nas diferentes igrejas da Comunhão Anglicana.

    A comissão refletiu sobre os princípios teológicos subjacentes à Carta de Princípios para a Segurança das Pessoas nas Igrejas da Comunhão Anglicana[5] – documento que foi adotado pelo ACC em sua reunião de 2012 (anexo abaixo). “O testemunho das Escritura sobre o amor de Deus para todos os membros da família humana e a prioridade dada no ministério de Jesus para as crianças e os vulneráveis da sociedade serão fundamentais para o trabalho da comissão”, disse Blake. “Nosso encontro em Londres foi fortalecido pela oportunidade de ouvir a história de pessoas que foram abusadas nos contextos de igrejas na Inglaterra”.

    A comissão fez uma análise preliminar das diretrizes para prevenir abusos e para responder a abusos quando este ocorre; e considerou como as mesmas poderiam ser aplicadas aos diferentes contextos das províncias da Comunhão Anglicana. A comissão criou três grupos de trabalho nas áreas de teologia, política e liturgia; e realizará sua próxima reunião presencial em maio próximo, na Cidade do Cabo. “Agradecemos as expressões de apoio e oração para o nosso trabalho na vida da Comunhão”, disse Blake.

    A comissão é composta[6] pelo Revd Sereima Divulavou Lomaloma de Fiji; Marcel Cesar Pereira do Brasil; Bispo Cleophas Lunga do Zimbabwe; Rev. Immaculée Nyiransengimana do Ruanda; Bispo Brian Marajh da África do Sul; Bispo Festus Yeboah-Asuamah de Gana; Mary Wells do Canadá; Robin Hammeal-Urban dos EUA; Caroline Venables da Inglaterra, o Arquidiácono Christopher Smith do País de Gales; Rev. Clare Yoon Sook Ham da Coreia; e o CanonAndrew Khoo, co-presidente do comitê de direitos humanos da Ordem dos Advogados da Malásia. A comissão teve como facilitadora Marilyn Redlich, membro da Comissão para um Ministério Seguro da Austrália.

    A comissão foi recebida pelo Arcebispo da Cantuária em uma celebração eucarística na cripta do palácio de Lambeth. O Arcebispo expressou seu desejo de que a comissão encontre caminhos para que a igreja não viva em função do medo de abuso, mas do amor fraterno que a une. Fica para o Brasil o desafio de assimilar estes princípios, encontrando sua própria concepção de segurança como utilizar as ferramentas propostas pela Comissão para uma Igreja Segura.

    Carta de princípios para uma Igreja Segura

    Apoio pastoral onde há abuso

    1. Ofereceremos apoio pastoral aos abusados, suas famílias e paróquias afetadas e organizações da igreja:

    A. uma. Ouvindo com paciência e compaixão suas experiências e preocupações;

    B. Oferecendo assistência espiritual e outras formas de pastoral.

    Respostas efetivas ao abuso

    2. Teremos e implementaremos políticas e procedimentos para responder adequadamente às alegações de abuso contra o clero e outros funcionários da igreja que incluem:

    A. Divulgar nas igrejas o procedimento para fazer queixas;

    B. Prover cuidados pastorais para qualquer pessoa que se queixa de abuso;

    C. Investigação imparcial de alegações de abuso contra o clero e outro pessoal da igreja, e a avaliação de sua adequação para o futuro ministério;

    D. Prover apoio às paróquias afetadas e às organizações da igreja.

    Prática de pastoral

    3. Adotaremos e promoveremos padrões de educação e treinamento para a prática do ministério pastoral pelo clero e outros funcionários da igreja.

    Adequação ao ministério

    4. Teremos e implementaremos políticas e procedimentos para avaliar a adequação das pessoas para a ordenação como clero ou nomeação para cargos de responsabilidade na igreja, incluindo verificar seus antecedentes.

    Cultura de segurança

    5. Promoveremos uma cultura de segurança nas paróquias e nas organizações da igreja por meio da educação e treinamento para ajudar o clero, outros membros da igreja e os participantes a evitar a ocorrência de abuso.

    Fonte: http://www.anglicannews.org/news/2017/11/anglican-commission-begins-work-to-develop-global-safeguarding-procedures.aspx



    [1] http://acscn.anglicancommunion.org/

    [2] http://www.anglicancommunion.org/structures/instruments-of-communion/acc/acc-16/resolutions.aspx#s27

    [3] http://www.anglicancommunion.org/structures/instruments-of-communion/acc/acc-16/resolutions.aspx#s27

    [4] http://www.anglicancommunion.org/structures/instruments-of-communion/acc/acc-16/resolutions.aspx#s28

    [5] http://acscn.anglicancommunion.org/media/99278/Safe-Church-Charter-November-2012.pdf

    [6] http://www.anglicannews.org/news/2017/06/membership-of-the-anglican-communion-safe-church-commission-announced.aspx

     
  • SNIEAB 17:13 on 24/11/2017 Permalink | Responder
    Tags: , Missão Ecumênica   

    Missão Ecumênica 2017: Marabá e Redenção 

    Representei a IEAB e a Comissão de Incidências Públicas na Missão Ecumênica em Marabá e em Redenção, sul do Pará, entre os dias oito e onze de novembro deste ano. Havia participado da primeira delas que aconteceu em dois mil e quinze, no cone sul matogrossense, nas cidades de Campo Grande e Dourados, em solidariedade ao Povo Guarani Kaiowá e ao CIMI (Conselho Indigenista Missionário) que era alvo de uma CPI estadual.

    A Comissão Pastoral da Terra (CPT) entendeu ser necessária também a solidariedade ecumênica aos acampados e assentados da região sul do Pará que enfrentam uma série de mandados de reintegrações de posse, e cujas vidas estão à mercê de pistoleiros e de policiais.

    É uma das regiões mais violentas do país. Ali ocorreram chacinas como as de Eldorado dos Carajás e Pau D’Arco que vitimaram muitos trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra.

    A Missão Ecumênica organizada pelo Fórum Ecumênico Brasil, Processo de Articulação e Diálogo Internacional, CEBI CESE, CONIC, KOINONIA, CPT, Comitê Brasileiro de Defensores e Defensoras de DH, Diocese de Marabá, Diocese de Conceição do Araguaia contou com a presença de representantes das Igrejas Presbiteriana Unida, Aliança Batista, Luterana, Católica Roma e Anglicana. Também houve representatividade das religiões de Matriz Africana, na pessoa de um Ogam (sacerdote) de Candomblé.

    Na manhã do dia oito de novembro nos reunimos na casa de encontros da Diocese Católica Romana de Marabá para uma celebração de abertura.  Os quatro elementos da natureza (a terra, a água, o fogo e o ar), o indígena, o negro, o camponês sem terra, a Bíblia, a resistência e a solidariedade deram vazão a uma rica liturgia motivadora e comprometedora… Na sequência todos e todas se apresentaram dizendo o nome, a organização, o movimento, a pastoral ou a igreja que estava representando. Militantes da CPT, do MST e de outras organizações que atuam na região contextualizaram a realidade local onde predomina a concentração de terras, a grilagem, a extração mineral em grande escala, a exploração da mão-de-obra, uma considerável presença de acampados e assentados, algumas  aldeias indígenas, pistolagem, policiais a serviço dos poderosos, chacinas, assassinatos de lideranças camponesas, ameaças de morte e muita impunidade…

    Após o almoço nos deslocamos de Marabá para Redenção. Foram seis ou sete horas de viagem em um micro-ônibus. Fomos diretamente para a Câmara Municipal onde aconteceria um ato político/religioso com a presença dos missionários ecumênicos, o Bispo Católico Romano de Conceição do Araguaia, padres e leigos ligados à CPT, outras organizações e movimentos, parentes das vítimas de Pau D’Arco e outras pessoas que fazem parte da Igreja Católica local.

    Na manhã do dia nove de novembro um novo deslocamento agora para o Acampamento Jane Júlia da Liga Camponesa dos Pobres, onde ocorreu a chacina de Pau D’Arco.

    Durante o trajeto uma parada na “Curva do S”, junto ao monumento dos sem terra que tombaram em Eldorado dos Carajás.

    Uma sobrevivente do massacre, militante do MST, fez um breve relato do que aconteceu naquele fatídico dia em que dezenove camponeses sem terra foram assassinados por policiais militares. A comoção se fez presente quando o nome de cada uma das vitimas ia sendo lembrado.

    Em Pau D’Arco fomos acolhidos sob uma cobertura de folhas de buriti por famílias acampadas no local. São quase trezentas famílias que ocupam uma extensa área que já poderia ter sido negociada pelo INCRA, antes mesmo da chacina. Os acampados falaram da dura realidade que enfrentam no dia-a-dia: o medo de novos assassinatos, a impunidade dos assassinos, a insegurança por causa da reintegração de posse em andamento… Porém, expressaram o quanto são resistentes na luta por um pedaço de chão.

    O momento marcante da visita foi junto ao local onde aconteceu a chacina. Um lugar de difícil acesso, em meio a um matagal. Um dos sobreviventes fez um relato do que aconteceu naquele dia. “Nós estávamos em uma área que entendíamos segura. Chovia bastante, vários homens e uma única mulher, a Jane Julia. Estávamos sob a proteção de uma lona preta. Eis que de repetente um grupo de policiais militares e civis de Redenção se aproximou e começou a atirar com armas de grosso calibre. Alguns conseguiram escapar porque perceberam o perigo e correram para o mato. De longe ouvíamos os tiros e os gritos das pessoas que eram executadas. Também ouvíamos os policiais que gritavam muito e xingavam os sem terra”.

    Perfurações de balas nas cabeças e em órgãos vitais provaram que foram execuções à queima roupa. Tais provas só foram possíveis porque coube à Polícia Federal periciar os corpos, examinar o local e levar adiante as investigações.

    Sob algumas árvores, onde estavam os acampados, um par de botinas, um farolete quebrado, restos de roupas, escovas de dente e outros pertences das vítimas…

    Novamente a comoção tomou conta de todos e de todas, e não poderia ser diferente, haja vista a violência desmedida contra os pobres camponeses sem terra.

    Durante a tarde uma audiência na Defensoria Pública do Estado do Pará com dois jovens defensores públicos que acompanham o caso de Pau D’Arco.  Foram eles que intermediaram a vinda de um delegado e equipe especializada da Polícia Federal.

    Por solicitação da Defensoria os policiais envolvidos na chacina foram transferidos para Belém, e dos dezessete acusados, quinze continuam presos e devem ir a júri popular. “É preciso, disseram os Defensores, chegar aos mandantes. Não é tarefa das mais fáceis”.

    Manifestaram certa preocupação quanto à celeridade das investigações, dos julgamentos e das condenações dos réus. Poucos Defensores e uma demanda enorme de questões. Retirada da equipe da Polícia Federal por ordens superiores. Demora na tramitação dos processos.

    Bem de manhã, no dia dez, tomamos o caminho de volta a Marabá. Como era previsto, passamos pelo Acampamento Hugo Chávez, do MST.

    Mais de trezentas famílias ocupam desde dois mil e quatorze uma extensa área de terra que no passado havia sido um imenso castanhal. Sendo de domínio público foi concedido o direito de exploração comercial a um poderoso latifundiário da região. Em não havendo titulação da terra, apenas concessão de exploração, a mesma não poderia ser comercializada (vendida a outras pessoas). O castanhal desapareceu, e a área acabou sendo sucessivamente vendida a vários latifundiários.

    O Acampamento está bem estruturado. Escola fundamental do campo, galpões, horta comunitária e uma produção diferenciada de alimentos orgânicos como o arroz, o feijão, o milho, a mandioca, a abóbora, o açaí…

    Fomos acolhidos em um dos galpões por crianças, adolescentes, jovens, adultos e pessoas já em idade avançada. Como é de praxe em acampamentos do MST, uma mística bem elaborada deu conteúdo àquele momento tão importante de solidariedade e de comprometimento com a luta pela terra.

    O hino do MST, o “grito de guerra” dos sem terrinha e dos sem terra, os relatos dos acampados e as manifestações de solidariedade dos visitantes de lugares tão distantes e diversos ecoaram como um sinal de resistência e de esperança frente ao mandado de reintegração de posse. Ocupar, resistir e produzir…

    O almoço preparado com produtos orgânicos produzidos pelos próprios acampados foi servido lá pelas quatorze horas, e em seguida rumamos para Marabá.

    À noite, antes do jantar de confraternização dos que compuseram a Missão Ecumênica e membros da CPT local, uma avaliação das nossas muitas atividades nestes dias de Missão. O que vimos e o que ouvimos dos acampados e assentados, os encaminhamentos que precisam ser feitos para que a Missão produza algum resultado benéfico para a luta dessa gente que anseia por um pedaço de chão.

    À CPT do Pará, lideranças religiosas próximas e defensores dos Direitos Humanos coube a responsabilidade de acompanhamento das questões que dizem respeito às reintegrações de posse, as ameaças de morte que pesam sobre camponeses (as), Advogados e outras pessoas e sobre as investigações da chacina do Pau D’Arco.

    À CESE, ao CONIC, KOINONIA e outras organizações da Missão Ecumênica o encaminhamento de denúncias junto às organizações internacionais que são solidárias para com a luta dos camponeses(as) sem terra do Brasil.

    Quanto a nós, IEAB, que a nossa solidariedade para com os que lutam por um pedaço de chão, por soberania alimentar, por dignidade, justiça e paz se intensifique ainda mais.  Que informemos às Igrejas que fazem parte da Comunhão Anglicana, particularmente aquelas com as quais mantemos uma maior aproximação, a triste realidade fundiária brasileira que favorece a concentração de terras nas mãos de umas poucas famílias e de grupos econômicos nacionais e internacionais.

    Em Cristo,

    Rev. Luiz Carlos Gabas

    Cascavel, novembro de 2017.

     
  • SNIEAB 8:51 on 20/11/2017 Permalink | Responder  

    Carta da Câmara Episcopal sobre a Conjuntura no Brasil 

    MANIFESTAÇÃO PÚBLICA DA CÂMARA EPISCOPAL DA IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL
    SOBRE A REALIDADE BRASILEIRA

    A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram.
    A verdade brotará da terra, e a justiça olhará desde os céus. (Salmo 85.10-11).

    Reunidos como Câmara Episcopal da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, 19ª Província da Comunhão Anglicana, presente neste país desde 1890, reunida nos dias 17 a 19 de Novembro de 2017, e diante da continua ameaça aos direitos humanos e ambientais promovida pelo Governo Federal, por deputados do Congresso Nacional e por decisões recentes do Supremo Tribunal federal, nos manifestamos, afirmando:

    a. A Lei Trabalhista que entrou em vigor neste mês começa a ter reflexos negativos na vida da classe trabalhadora brasileira, em especial das mulheres gestantes, e pessoas que sofram acidentes de trabalho, sofram imposição de jornadas desumanas, percam a capacidade de reivindicar seus diretos na justiça, e outros tantos prejuízos já apontados por órgãos representativos como OAB e entidades de juízes e juízas do trabalho. Sendo que a promessa de geração de mais de dois milhões de empregos e irreal e enganosa.
    b. A tentativa de liberar a Amazônia Legal para a mineração, e o abandono da fiscalização em todo o território nacional, já apresenta números alarmantes como o desmatamento no Bioma Cerrado (maior do que no Amazônico) e o avanço de mineradoras em Minas Gerais, sem contar o descaso ao atendimento das famílias e áreas afetadas pelo desastre ecológico promovido pela Samarco e suas proprietárias Vale e Billiton BHP.
    c. A retirada dos Planos Nacionais, Estaduais e, em muitos casos, Municipais de Educação da abordagem de questões de gênero e orientação sexual, a reforma tecnicista do Ensino Médio retirando as disciplinas que promovem o pensamento crítico e criatividade, além da liberação do ensino religioso confessional atentando contra a educação laica, universal e de qualidade para todas as pessoas. Alertando também para o desmonte das políticas públicas a partir do congelamento orçamentário nesta área nos próximos vinte anos.
    d. Também nos colocamos em clara oposição as novas tentativas de redução da maioridade penal mostram a falta de visão de justiça restaurativa, que promova a recuperação das nossas crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social.
    e. A Reforma Política não tem avançado substancialmente em nenhuma questão de fundo que retira a ação corruptora das grandes empresas, organizações empresariais e interesses multinacionais sobre o processo eleitoral e, consequentemente, sobre o caráter republicano do Congresso Nacional, como o consequente perigo que isso traz para propostas parlamentaristas.
    f. Também nos preocupa a ação contra tradições religiosas de matriz africana, que integram de forma inegável a base da cultura e religiosidade brasileira, desrespeitadas por decisões judiciais através de argumentos não legais e estranhos a sua matriz religiosa que promovem ainda mais o ódio e a discriminação.

    Finalmente declaramos nosso compromisso de nos unir a todas as Igrejas Cristãs, Organismos Ecumênicos e Interreligiosos, Movimentos Populares e Sindicais e outras entidades da sociedade civil organizada, visando impedir a Reforma da Previdência sobre a qual já nos manifestamos, e a manipulação financeira de votos no Congresso Nacional para conseguir a aprovação de questões de interesse do Executivo, e na esperança de um processo eleitoral aberto e grande discussão das questões nacionais em 2018.

    Brasilia, 20 de novembro de 2017
    Dia Nacional da Consciência Negra

    Revmo. Francisco de Assis da Silva – Bispo Primaz e Bispo da Diocese Sul Ocidental;
    Revmo. Naudal Alves Gomes – Bispo da Diocese Anglicana de Curitiba;
    Revmo. Maurício José Araújo de Andrade – Bispo da Diocese Anglicana de Brasília;
    Revmo. Saulo Maurício de Barros – Bispo da Diocese da Amazônia;
    Revmo. Renato da Cruz Raatz – Bispo da Diocese Anglicana de Pelotas;
    Revmo. Humberto Maiztegui Gonçalves – Bispo da Diocese Meridional
    Revmo. Revmo. Flavio Augusto Borges Irala – Bispo da Diocese Anglicana de São Paulo;
    Revmo. João Câncio Peixoto Filho – Bispo da Diocese Anglicana do Recife;
    Revmo Eduardo Coelho Grillo – Bispo da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro
    Revmo Almir dos Santos, Emérito
    Revmo Celso Franco de Oliveira, Emérito
    Revmo Filadelfo de Oliveira Neto, Emérito
    Revmo Jubal Pereira Neves, Emérito

     
  • SNIEAB 0:02 on 31/10/2017 Permalink | Responder  

    Estandarte Cristão nº 1823 

    A nova edição do Estandarte Cristão, em celebração pelos 500 anos de reforma protestante, pode ser lida, online, pelo link: https://issuu.com/ieab/docs/ec_1823_out_2017. No canto inferior direito do leitor, ao lado da tecla +, é possível clicar em “fullscreen” para ver a revista em tela cheia.

    O Estandarte Cristão nº 1823 também pode ser baixado, através deste link.

    Divulgue e colabore, para reviver essa importante e tradicional publicação de nossa igreja!

     
  • SNIEAB 10:00 on 09/10/2017 Permalink | Responder  

    Relatório sobre o Encontro de Primazes 2017 

    RENOVADOS PELA COMUNHÃO E COMPROMETIDOS COM O SERVIÇO AO POVO DE DEUS

    Os Primazes escolheram o caminho de ouvir o chamado de Deus para o serviço do mundo mais do que para discutir doutrina ou disciplina.

    Para além disso, os Primazes não caíram na tentação de desperdiçar tempo com o que não tem sido possível consensuar. O desejo de caminhar juntos foi reafirmado de forma veemente contra quem, talvez, apostasse numa divisão irreversível da Comunhão.

    A atitude da Igreja da Escócia de se dispor a aceitar as consequências de sua decisão ajudou em muito na aceitação de que a diferença é parte da nossa Comunhão. O tempo gasto com o tema da decisão escocesa foi curto e a agenda dos Primazes pode finalmente caminhar para outros campos.

    Algumas definições foram também muito importantes no processo da reunião. A reafirmação de que ACNA (Anglican Church in North America) não é um província da Comunhão pontuou claramente os limites de nossas relações. A reafirmação sobre a necessidade de se respeitar os limites das jurisdições contra a prática de cross-border e a necessidade de reconciliação onde esta prática tem sido adotada foi igualmente um claro recado contra quem pretende impor aos demais a sua visão de igreja e de missão.

    Qual a Igreja então que emerge desse Encontro dos Primazes? Uma Igreja que ora! Todos os dias, de manhã e à tarde, os Primazes tiveram o privilégio de celebrar ofícios devocionais e Eucaristia junto com a comunidade da Catedral de Cantuária. O Encontro começou com um retiro e se encerrou com uma Eucaristia e Lavapés (como sinal de mútuo serviço em Cristo). Cada dia, um Primaz, nos desafiava a um estudo bíblico que chamava-nos a atenção para o anúncio do Evangelho de Cristo em contextos de sofrimento, injustiça e descuido com a Criação.

    Os Primazes assumiram o compromisso de continuarem liderando suas Províncias no enfrentamento das mudanças climáticas tanto através da formação de suas Igrejas quanto através da ajuda concreta às populações que sofrem as consequências diretas dos desastres naturais.

    O protagonismo da mulheres foi notadamente reconhecido em seus papeis de promotoras das paz e da reconciliação em muitos contextos e há um claro compromisso de que se pense um programa que capacite as mulheres para uma intervenção mais efetiva nas suas realidades eclesiais e sociais.

    Os Primazes expressaram sua sincera preocupação e construíram um compromisso de solidariedade com os 65 milhões de refugiados no mundo, além dos 20 milhões de pessoas deslocadas por razões de desastres naturais. Compromisso esse que deve envolver as diversas Províncias conjuntamente, bem como os órgãos multilaterais de apoio internacional.

    A partir da recomendação do Conselho Consultivo Anglicano e, diante de contextos cada vez conflitivos em várias partes do mundo, os Primazes apoiaram a criação da Comissão Internacional Anglicana de Diálogo Inter-religioso. Caberá a ela construir caminhos de compreensão dos contextos de conflitos, de diálogo e de cooperação entre as religiões.

    O sentimento geral dos Primazes é de que este foi um dos melhores encontros que já foram realizados. O grande ganho deste, especialmente quando comparado ao de 2016, foi o crescimento de uma comunhão sincera, profunda entre irmãos que ao invés de disputas doutrinais optaram por partilhar as dores e os desafios de um mundo que sofre com as injustiças, guerras, mudanças climáticas. O segredo talvez tenha sido a capacidade de ouvir atentamente uns aos outros e se perceberem como uma família chamada a ser testemunha da Boa Nova de Jesus Cristo.

    Quero agradecer especialmente a todas as pessoas que oraram para este Encontro. Foi possível sentir uma atmosfera espiritual mesmo em meio debates da agenda. Um momento de autentico fortalecimento dos laços de afeição que nos une como Povo de Deus e como líderes espirituais de uma Comunhão tão diversa e tão bela!

    ++ Francisco de Assis da Silva

    Bispo Primaz da IEAB e Diocesano da Sul Ocidental

     
  • SNIEAB 11:13 on 05/10/2017 Permalink | Responder
    Tags: , , Cantuária, , ,   

    Encontro dos Primazes: Evangelismo, Discipulado e Reconciliação 

    O segundo e terceiro dias foram bem distintos em termos de agenda. A difícil pauta da reunião de 2016 desta vez se reduziu a praticamente duas horas de conversa a partir do relato da Igreja da Escócia sobre a decisão de aprovar a possibilidade canônica de matrimônio entre pessoas de mesmo sexo.

    As reações vieram praticamente das mesmas fontes: Primazes do Sul global. A ausência de seis primazes – alguns dos quais mais radicais – representou uma pequena mudança no tom e nem provocou debate acirrado entre os presentes. O arcebispo de Cantuária, por questão de coerência, apenas reafirmou (com o apoio dos colegas do Sul global) que as mesmas consequências que foram experimentadas pela TEC e pelo Canadá se aplicariam igualmente à Escócia. O próprio Primaz da Igreja Episcopal da Escócia afirmou que a Província já estava consciente disso é que entende que seria injusto tratar de forma diferente Igrejas que assumiram o risco de alterarem seus cânones sobre a matéria.

    A partir daí, a agenda da reunião tomou o rumo que se espera que a Comunhão tome: discutir o futuro da comunhão e seu testemunho no mundo através do anúncio do Evangelho, da renovação da espiritualidade e a pratica efetiva do serviço.

    John Kafwanka, apresentou o projeto Discipulado Intencional. Um projeto que deve ser executado pelos próximos dez anos dentro da Comunhão. Algumas províncias tem feito adaptações locais para esta proposta. Um grupo internacional foi constituído para coordenar este projeto (o Brasil está representado pela Revda Tatiane Ribeiro).

    Uma outra importante iniciativa, chamada de Venha o Teu Reino, tem a finalidade de convidar toda a Comunhão Anglicana a compartilhar de forma efetiva a pessoa de Jesus Cristo ao mundo. E, ao mesmo tempo, ser ocasião de renovação da vida e da espiritualidade devocional.

    Muitas diferentes experiências foram partilhadas pelos distintos primazes da África, da Ásia e de Oceania. A conclusão a que se chega é de que o futuro da Comunhão passa pela adoção de uma forma mais concreta e envolvente de anunciar o projeto de Jesus.


    Por isso é muito importante trabalharmos em união, sem o que o testemunho não gerará efeitos. Em outras palavras, o desejo de se caminhar juntos a despeito das diferenças permanece intocável.

    Uma longa sessão foi vivenciada no dia de hoje sobre o tema da reconciliação. Relatos muito fortes e emocionantes da experiência das Províncias no Oriente Médio, na África, no Canadá e no Oriente revelam o quanto a Comunhão Anglicana pode ser instrumento de Deus para realizar o que é central no Evangelho: promover o reconciliação! Onde quer que o conflito que opõe pessoas entre si, povos, religiões e onde a exploração das pessoas pelas outras avilta a criação de Deus, a igreja é chamada a promover a justiça e a reconciliação.

    Na noite da terça-feira, os Primazes foram liderados pelo Deão da Catedral de Cantuária em uma peregrinação de luzes pelos pontos mais significativos da Catedral. Foi uma jornada que lembrou tempos imemoriais desta linda Catedral e que concluiu em frente à Capela dos Santos e Mártires, lembrando aos Primazes que o martírio é parte do testemunho sacrificial que tem em Jesus mesmo o mais líquido exemplo.


    O Encontro dos Primazes será concluído na sexta-feira próxima é um comunicado será feito à toda a Comunhão.

    ++ Dom Francisco de Assis da Silva

    Primaz do Brasil

    Diocesano em Santa Maria

     
  • SNIEAB 10:14 on 30/09/2017 Permalink | Responder  

    Encontro de Primazes da Comunhão Anglicana 2017 

    Semana que vem os Primazes da Comunhão Anglicana (02-06 de outubro) estarão reunidos para compartilharem seus ministérios, rezarem juntos e discutirem importantes assuntos que estão na pauta da Igreja. Entre os muitos assuntos, especial atenção será dada à questão do meio ambiente e ao tráfico de pessoas.
    A reunião convocada pelo Arcebispo de Cantuária é também uma oportunidade de receber o relatório da Comissão Especial nomeada na última reunião de janeiro de 2016 quando os Primazes decidiram reafirmar o seu compromisso de caminharem juntos e em comunhão apesar das diferenças de perspectivas com relação à sexualidade humana. A proximidade da próxima Conferencia de Lambeth, marcada para 2020, deve também, ocupar lugar importante na agenda.
    O Encontro será precedido de um retiro e durante todo o encontro será vivenciada uma profunda espiritualidade de serviço de uns pelos outros e de renovação do compromisso do ministério primacial em favor de todo o Corpo de Cristo. Este foi um grande ponto de destaque da última reunião.
    Nesta reunião teremos 17 novos Primazes e isto também será uma rica oportunidade de se conhecer novos rostos e novas perspectivas que vem enriquecer a diversidade da Comunhão. Também será a primeira vez que a nova Província do Sudão do Sul.


    Como nas demais reuniões dos Primazes após Lambeth 1998 e, especialmente na última em janeiro de 2016, o assunto sobre sexualidade humana deverá ser de alguma forma abordado. A decisão recente da Igreja da Escócia com relação ao casamento de pessoas de mesmo sexo pode trazer à baila alguns conflitos que precisam ser enfrentados com muita paciência e real desejo de continuar-se o caminho de escuta sincera e respeitosa. A decisão de impor consequências às Províncias dos Estados Unidos e Canadá causou muito desconforto dentro da Comunhão.
    Conclamo nossa IEAB a se colocar em oração pela reunião dos Primazes e que ela seja ocasião para fortalecer os laços de afeição entre nossas diferentes culturas, teologias e compreensões distintas com relação a tantos temas. Que prevaleça ao final o chamado de Cristo para que sirvamos ao mundo e escutemos suas necessidades pastorais. Que o conforto e sabedoria  divinas se espalhem para toda a Igreja. O mundo precisa de paz, de justiça e de respeito. Devemos ser agentes dessa transformação tão necessária para a vida do Planeta.

    Francisco de Assis da Silva

    Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

    Diocesano em Santa Maria

     
  • SNIEAB 11:08 on 27/09/2017 Permalink | Responder
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    Primavera para a Vida 2017 

    “Quero ver o direito brotar como fonte, e correr a justiça qual riacho que não seca”. – Am 5, 24

    “O poder público e as empresas estão trabalhando para mandar essa riqueza para fora do país. E para a gente, nada. Para a gente só fica a tragédia”. (Douglas Krenak-liderança Krenak- aldeia indígena, onde o Rio Doce foi também atingido pela lama da Samarco)

    Queridas irmãs e irmãos!

    Com a chegada da Primavera, a CESE renova o seu compromisso ecumênico como serviço das igrejas de apoio à luta por direitos no Brasil. No próximo dia 30 de setembro, estará lançando sua Campanha Primavera para a Vida 2017 com o tema: “Mineração Aqui Não: O clamor dos povos e da terra ferida”. Com este tema queremos trazer a discussão do modelo mineral no Brasil, e como ele produz injustiças sociais e ambientais.

    Preparamos um material que irá ajudar a refletir sobre o tema:

    1) Carta explicativa sobre a escolha do tema  – para download: Sobre a escolha do tema

    2) O material com reflexões que poderão ser utilizados nos estudos bíblicos e encontros das igrejas - para download:  Vida Bíblia e Mineração e O ouro dessa terra é bom

    3) Lista de vídeos – para download: Sugestões de videos

    4) Proposta de liturgia – para download: Liturgia – versão final

    5)  Vídeo: Pai Nosso dos Mártires – assista aqui

    Esperamos que vocês se animem a refletir sobre este tema na sua igreja, no seu grupo e que a primavera seja propícia para reafirmar o nosso compromisso com a nossa oikoumene!


    Sônia Mota

    Diretora Executiva – CESE

     
  • SNIEAB 20:02 on 20/09/2017 Permalink | Responder  

    Aliança Anglicana: Não deixar ninguém para trás – teologia que escolhe juntar 

    Paulo Ueti, assessor teológico e facilitador da Aliança Anglicana e da Diocese Anglicana de Brasilia,  reflete sobre o ministério da reconciliação e a intencionalidade de nosso trabalho teológico em direção a uma igreja e comunidades acolhedoras, resilientes e dispostas a serem lugar de segurança, esperança e de frutificação do Reino. A Aliança Anglicana quer ser um espaço de conectar a familia episcopal e anglicana para compartilhar recursos e fortalecer a solidariedade e a comunhão.

    Não deixar ninguém para trás – teologia que escolhem juntar: A correção fraterna e a vocação para a unidade – ligar na terra para que seja ligado no céu

    Num domingo desses algumas igrejas tiveram em seu culto a proclamação e a pregação a partir do Evangelho de Mateus 18:15-20. Muitos comentários circulam pelas redes sociais para contribuir com os sermões e para ajudar na compreensão melhor deste texto. Muitos deles apoiados em comentários exegéticos e hermenêuticos disponíveis.

    1. Situando

    Vivemos já há algum tempo uma agudização da polarização política e ideo-teológica nas nossas sociedades. Para sublinhar o óbvio é preciso dizer que as desigualdades continuam sólidas, enraizando-se cada vez mais e crescendo globalmente. Não é mais uma questão ou problema do chamado “terceiro mundo” ou “dos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento”. Consequência disso são os níveis de intolerância e diferentes fobias que tem estampado nossas vidas cotidianas provocando mais sofrimento, exclusão e morte.

    Estamos num momento assustador, para dizer o mínimo. Grupos neo-nazistas ressurgindo, políticos (sim aqui o masculino é proposital e determinante) misóginos, homofóbicos, racistas e xenofóbicos tomando conta dos parlamentos e de governos no mundo todo. E o pior é perceber quanta gente religiosa que os apoia e reproduz seus ideais e comportamentos. A diversidade, que é NATURAL, parece estar perdendo o lugar e sendo tratada, há muito tempo já, como ameaça a “ordem natural e divina”, seja lá o que isso signifique.

    Aqui falo como cristão, não pretendo tecer comentários sobre outras religiões, não cabe a mim. Nas igrejas cristãs, como em qualquer grupo social, vivemos dissensões e sempre teremos gente que vai errar (pecar). Afinal, nascemos “na iniquidade” (cf. Salmo 51:4.7) A igreja, aliás é o lugar privilegiado para essas pessoas (elas são as “vocacionadas – chamadas para estar em Jesus”), as que erram, as perturbadas, as que necessitam ajuda, as desequilibradas, as pecadoras, afinal “quem não tem pecado atire a primeira pedra” (cf Jo 8:7). Igreja não foi, não é e não será o lugar da idealização de “santidade” (o lugar eugênico, da raça “pura”, que não peca mais) que muita gente acha que existe em suas mentes e espíritos despedaçados e fantasiosos. Somos gente e gente é sempre difícil. Quando chamamos alguém de “difícil”, lamento mas estamos somente indicando o óbvio, que aliás serve para nós mesmos também. Conflitos, oposições, brigas, fofocas, tentativas de hegemonização sempre haverá. Faz parte da vida.

    O mundo foi criado diverso. Quando alguns grupos tentaram o golpe do totalitarismo e da homogeneização na história de Babel, Deus interviu e devolveu a diversidade que ele criou. Ele enfrentou o império que prima pela monocultura, monogoverno (cf. Gn11:1-9). O movimento de Jesus foi diverso. A igreja nasceu na diversidade, assim é a nossa tradição. A imagem da Igreja é a imagem do corpo, ou seja, diverso. Seja aquela das cartas Paulinas autênticas, dos evangelhos ou a declarada pelos Atos dos Apóstolos. A diversidade é a natureza da comunidade e espiritualidade cristã. E o pecado e o erro são parte dessa vida em movimento, inquieta e sempre em busca.

    2. O leitmotiv do texto em questão

    É necessário dizer o óbvio. Sobre o texto e a história que ele conta. Não estivemos lá. Nunca saberemos “ao certo” o que foi mesmo que gerou essa articulação do discurso de Jesus feita por Mateus. Podemos investigar e chegar a conclusões racionais e “consentir” em algum rumo para interpretar o sentido do texto.

    Eu resolvi escrever essa reflexão:

    • porque gosto muito desse texto e do contexto literário onde ele está inserido.
    • porque utilizo bastante essa perícope como exercício hermenêutico com os grupos com quem trabalho.

    Meu ponto, no exercício, é confrontar e oferecer uma alternativa (seguindo muitas outras pessoas estudiosas da Bíblia) às interpretações “tradicionais” sobre o que significa quando a pessoa “não tem mais jeito” e deva ser tratada como “pagã/gentil e cobradora de impostos”. Isso significa que sempre terminam, ao ler e interpretar o texto, com o conselho para a “disciplina” ou exclusão/excomunhão “da pessoa problemática” (a pessoa difícil – acho que muitas de vocês ou já foram rotuladas assim ou já rotularam alguém, assim como eu). Encontramos alguns comentários, infelizmente, como recurso para quem vai pregar no domingo, de que a pessoa “se exclui”: E se a pessoa não quiser escutar a comunidade, que ela seja para você como um publicano ou pagão, isto é, como alguém que já não faz parte da comunidade. Não é você que a está excluindo, mas é a pessoa que se exclui a si mesma”. Sem dúvida temos o absoluto direito de, a partir de nossas perspectivas e estudos, interpretar dessa forma. Mas novamente quero sustentar que essa é uma escolha hermenêutica de gente que vive nesse contexto e/ou está de acordo com ele (igrejas desligando gente das suas comunidades ou instituições familiares, ecumênicas ou outras porque “não se encaixam” na instituição ou no modelo hegemônico da mesma).

    Eu prefiro escolher uma interpretação (e sim, interpretar é sempre uma escolha) mais acolhedora e mais configurada com a teologia, espiritualidade e agenda política de Jesus de Nazaré, o Cristo tão bem imaginado pelo Isaias 40-55. Ninguém é deixado pra trás. É necessário embarcar na difícil tarefa ecumênica (tenho cuidado com essa gente “ecumênica” que prefere “limpar” a comunidade de gente “difícil”) de conviver e reconhecer que gente difícil todas nós somos de algum modo.

    3. O nosso tecido carinhoso de teimosia misericordiosa

    Penso que é prudente e razoável tomar uma perícope maior. Já aprendemos de muito tempo que todo texto tem seu contexto literário que ajuda a “direcionar” a intenção de quem deixou a memória e de quem escreveu a mesma. O capítulo 18 faz parte dos grandes discursos (pregações) de Jesus para a comunidade, a igreja. É Jesus o autor da fala e é a igreja a destinatária. Pra ser sincero é meio improvável que Jesus tivesse dito isso do jeito que está escrito. No tempo dele não havia igreja cristã (ekklesia) ainda. E acho improvável que ele se referisse à sinagoga (ekklesia pode ser também a congregação de judeus).

    O nosso texto em destaque – Mt 18:15-20 – está rodeado de outros textos que formam a moldura para que o encaixe seja adequado (Mt 18:1-10; 11-14 e 21-35: textos sobre quem está perdido e sobre o perdão como pilar fundamental da vida comunitária e da vida em sociedade).

    Mateus já começa o sermão (chamado por alguns biblistas de Sermão Eclesiológico) atestando que os discípulos estão ainda preocupados com a hierarquia dos poderes. Eles não estão interessados em mudar o sistema de opressão (bom lembrar a decepção relatada no texto de Lc 24:13-35 – do casal de Emaus). Eles estão interessados em trocar de lugar na dança das cadeiras de quem está no “poder que controla e oprime”, tomar o poder para que eles possam ocupar esse lugar e não ser mais oprimidos. Por isso estão perguntando: quem é o maior no Reino dos Céus (essa preocupação dos discípulos, bastante em dissonância com as preocupações de Jesus, é muito bem atestada em vários outros relatos evangélicos). E o exemplo que Jesus dá em primeiro lugar é o da criança (paidion), dos pequeninos (mikron). Tem que ser como criança, não pode escandalizar as crianças (dar mau exemplo, faze-las sair do caminho – ortopraxis). Jesus no mesmo evangelho já havia louvado a Deus por ter revelado as coisas do Reino aos pequeninos (Mt 11:25). O Reino não é para as pessoas são “certinhas”, inocentes, “santas” e recatadas, obedientes/domesticadas/projetos de adulto (tudo que uma criança normalmente não é – quem tem filhas/os e/ou lidou com crianças sabe do que estou falando). O Reino é “do jeito da criança”: ousada, as vezes inconveniente, perturba a ordem estabelecida pelas pessoas adultas, é aberta e curiosa a aprender, perambulante, atravessa limites, meio desobediente, aquela que necessita, que é carente de relações, corajosa e que exerce poder desde o dia que nasce para o mundo (e normalmente ganha).

    Depois vem a conversa famosa e demasiadamente pregada nas igrejas sobre a ovelha perdida (Mt 18:11-14). Tema bonito para retiros, aqueles papeis laminados na parede do altar, sermões efusivos. E a declaração (“meio” artigo de fé, que incomoda os defensores da “raça pura dos eleitos do Senhor) bombástica do verso 11: veio salvar/curar/cuidar o que se tinha perdido. A pessoa que tem lugar privilegiado para a missão da comunidade, penso eu, é aquela pessoa que está “perdida”, que é problemática, que não se encaixa no modelo hegemônico da instituição ou de quem está na coordenação (talvez porque a comunidade ficou demasiadamente fixa que não deixa mais espaço para acomodações das mudanças de contexto ou de auto-crítica).

    A moldura de baixo é também, obviamente, muito importante. É sobre perdoar sempre, 70 vezes 7, o número do infinito, da incondicionalidade. Parece que há uma insistência literária, teológica, escriturística, eclesiológica e espiritual do exercício do perdão. Lembrando sempre que o perdão está muito relacionado com quem perdoa, mais do que com quem deveria ser perdoado. O exercício do perdão não é sobre a outra pessoa na verdade, sobre “quem pecou”, é um exercício de quem julga ter autoridade para condenar ou julgar (normalmente para condenar). Infelizmente nas comunidades e nas relações (nem sempre equitativas em relação ao exercício de poder) o papel de quem convoca “conversas sérias” ou “julgamentos” é o papel do acusador (o Diabo – o Satanás), quase nunca do defensor (o Paráclito, o Espirito Santo). Algo para pensar bastante.

    4. Aí sim, depois dessa primeira moldura de cima e de baixo, entramos em nossa perícope – Mt 18:15-20.

    A igreja é o lugar das pessoas que buscam encontrar a Deus, e um requerimento importante é encontrar a si mesmas e as outras pessoas com quem ela escolheu conviver. Um novo tipo e arranjo familiar. Nada tradicional aliás. O verso 18 aqui identifica que a igreja (ekklesia-comunidade reunida em nome de Jesus) tem poder de ligar e de desligar. É um modelo “kyriarcal” (cf muitas feministas) e segue o “jeito” de impérios sobreviverem. Kyriarcado é um termo forjado por Elizabeth Fiorenza para designar o patriarcado, como modelo que é baseado no poder exercido pelo imperador/mestre/senhor/pai/marido sobre as pessoas subordinadas a ele/s, e é mais suscetível a encapsular outras formas de opressão como racial, de estrato social e econômica, assim como a opressão de gênero. Mesmo assim, com essa crítica reconhecida, é necessário perceber que se trata do poder de ESCOLHER desligar ou ligar. Infelizmente esse texto bíblico, as interpretações “normais” que se tem por ai (inclusive de biblistas e pastoralistas “da libertação”) é ainda usado para enfatizar o poder de desligar, excluir, legislar sobre quem “serve” e se “encaixa” para a vida comunitária. Esta [a vida comunitária] formatada a partir da teologia e projeto politico da “raça eleita” (e aqui uma certa tradição judaica pesou muito e foi transportada para o mundo cristão. Eu prefiro sempre exercitar ler esse texto com a tarefa fundamental que nos foi dada por Deus e que, em Cristo somos co-laboradoras, de ligar gente umas às outras, de permanecer ligados mesmo na diferença, divergência e conflito.

    Este pedaço é sobre o pecado. Se teu irmão pecar [“contra ti”, aparece em alguns códices mas em outros não] toma certas providencias. O texto é um chamado ao exercício metódico, transparente e persistente (resiliente) de lidar (e aprender a lidar) com as pessoas que “pecaram”. O pecado é algo que certamente é presente no cotidiano de todas as pessoas e na vida comunitária. Não é possível apagar o pecado, só é possível vencê-lo cotidianamente, reconhecer sua existência e também reconhecer que ele não tem mais poder sobre você (Rm 6). Se acreditamos que o pecado tem poder de afastar alguém de Deus ou manter Deus afastado das pessoas, precisamos orar mais e meditar mais para encontrar o Deus da graça e misericórdia incondicionais (Os 11, entre outros textos). E só é possível vencer o pecado cotidianamente com ajuda, quando estamos conectadas umas às outras, quando percebemos que temos necessidades comuns e precisamos nos ajudar. A comunidade é esse lugar. Na Regra de São Bento, ele imagina o mosteiro (a comunidade) como uma Escola do Senhor. É um lugar de mutuo aprendizado e mutua transformação para a vida. Ninguém está ou estará pronto. E ao final, ninguém chega pronto. A comunidade é o lugar de “se arrumar”. Não é tribunal muito menos clube fechado de pessoas que ficam se bajulando ou bajulando Deus o tempo todo.

    A comunidade deveria ser o lugar da esperança, da acolhida e da tolerância 70 x 7 vezes. É o lugar onde eu sei que em última instancia eu posso ir ou estar e serei acolhido, não julgado. Terei ajuda para melhorar ou para acertar meu rumo, não sentenciado e humilhado publicamente fazendo com que eu deseje nunca ter ido ou deseja sair. A gente vai já Igreja cristã para descobrir (para quem ainda nunca foi) ou para reconhecer (porque a gente já sabe na verdade) que Jesus me/te aceita. Eu não vou para eu aceitar Jesus.

    Numa sociedade impaciente, intolerante e violenta em que vivemos somos chamadas a testemunhar diferente. Somos chamadas a viver a experiencia de conversão cotidiana, onde todo mundo precisa de ajuda e onde todos mundo SE ajuda. Onde pedir ajuda seja natural e não humilhação. Onde haja espaço seguro e lugar para a convivência, que é e será sempre marcada pela tensão e necessidade de ajuste diário.

    Jesus, me parece, está insistindo com uma comunidade que precisa aprender, primeiramente a “ir atrás” e a lidar com o pecado e com as pessoas pecadoras (que aliás inclui a mim e a você que lê esse artigo). Em sociedades e grupos muito institucionalizados, certamente é um aprendizado necessário. O ensinamento nos textos reconhece que é difícil e que muitas vezes há uma insistência em ceder ao pecado. As vezes cedemos ao pecado e damos mais poder do que ele possui. Mas o escalonamento de “conversar individualmente, depois com mais uma testemunha e depois com a igreja” me parece um alerta para que o erro de alguém seja reconhecido como também responsabilidade do todo, da comunidade. Precisamos evitar colocar sempre a culpa na pessoa que pecou. Ao final levar a pessoa ao centro da comunidade não deveria ser interpretado como levar a pessoa para que a igreja a julgue, para que ela (a pessoa que pecou) seja exposta e somente ela reconheça publicamente o pecado. O processo terapêutico sugerido aqui é para que todo mundo seja afetado, é para que todo mundo possa falar sobre o assunto. E se mesmo assim não der certo, o conselho de Jesus é tratar a pessoa como “gentio e cobrador de impostos”.

    Mas o que significa mesmo tratar alguém como “gentio e publicano”? As interpretações corriqueiras são de que no tempo de Jesus e na cultura hegemônica em que ele vivia (em termos de normas legais e sociais) seria não se aproximar, excluir de sua convivência. Mas eu acho difícil imaginar que, mesmo se estivéssemos falando do tempo de Jesus (o que eu acho que não estamos – estamos no tempo da igreja), Jesus se conformou com essa norma. Ele foi um transgressor politico, econômico e também das normas sociais. Desafiou a “moral e os bons costumes” daquele sociedade na qual vivia. A vida de Jesus já começa recordando-se de que em sua genealogia há muitos gentios (gente não judia, cf Mt 1:1-17: Abraão, Isaac, Raab, Rute, Betsabá). Quando um centurião (soldado romano) foi em busca de sua ajuda, ele prontamente o acolheu e concedeu seu pedido (cf. Mt 8:5-13) e ainda elogiou o pagão dizendo que nunca tinha encontrado tamanha fé em Israel. Chamou para seu grupo intimo um cobrador de impostos, chamado Mateus (cf. Mt 9:9). Costumava andar com “pecadores e publicanos”, inclusive compartilhando sua intimidade da casa, tomando refeição – comungando – com os mesmos (cf. Mt 9:10-13).  Uma mulher gentia (siro-fenícia) veio até Jesus pedir ajuda para sua filha com demônio. Jesus, mesmo com reservas, dialoga com ela, a escuta, lhe dá razão e concede seu pedido e também ela – uma gentia – ganha um grande reconhecimento da parte de Jesus – grande é a fé dela (cf. Mt 15: 21-28). Aqui só percorrendo o Evangelho de Mateus.

    Mas, novamente quero insistir que não estamos lidando somente com o tempo de Jesus, na Palestina, pelos anos 30 dC. Estamos também lidando com um texto e uma memória que foi usada por uma comunidade mais tarde, quando a igreja cristã já era uma realidade, pelos anos 70 em diante. No caso do Evangelho de Mateus, muita gente concorda que é entre os anos 80 e 90 dC. Mesmo, utilizando o argumento de que a audiência de Mateus é uma comunidade majoritariamente formada por gente de tradição judaica, não é a totalidade da comunidade assim, e certamente se a comunidade tem problemas com gente que não seja dessa tradição isso precisa de conserto e revisão (Mt 15:21-28 – certamente mesmo Jesus dizendo que só veio para os judeus, isso foi rebatido veementemente por essa mulher siro-fenícia e isso mudou o jeito – o método e o conteúdo – da vida da comunidade).

    Neste texto em particular há uma insistência no diálogo, na insistência no diálogo mesmo quando somos ofendidas. Imagino que ser comparada, indiretamente, aos cachorros (que aqui pode ter duas possibilidades significativas) não é muito educado. Eu me sentiria muito ofendido se isso passasse comigo. Imagino que uma mulher já bastante sofrida foi também uma ofensa e humilhação pública vinda de Jesus. Textos guardam memórias para serem utilizadas no futuro, no momento correto para influenciar o presente e modifica-lo, normalmente, chamar a atenção para algo, atualizar a mentalidade e o comportamento. Mateus 18 é uma memória poderosa para a comunidade que escuta atenta. Há um conflito que precisa de carinho e cuidado. O texto/memória é para guiar, orientar e estabelecer método e conteúdo (ou melhor, relembrar o que foi esquecido).  Ler esse texto em nossos contextos de ódio e extremismos, reter essa memória que insiste na capacidade imensa de perdoar, de rever o que se passou conosco e o que fizemos outras passarem, revoluciona a maneira de como governamos a nossa vida e de como as igrejas e instituições deveriam exercer sua governança. É alento e balsamo que resultam em aumento de nossa resiliência, fortaleza e longevidade, em unidade e excentricidade pública, que incomoda e desafia grupos e ideo-teologias totalizadoras e homogêneas.

    Mas voltando ao exercício terapêutico de lidar com o pecado e com o poder de ligar ou desligar. Todo o capitulo é um grito para as lideranças da comunidade (ou para a comunidade como um todo) de dedicar-se umas as outras. E de dedicar-se especialmente aquelas pessoas que estão fora da norma e da forma (crianças, ovelha desgarrada, pecadores, pessoas difíceis). Reconhecer o pecado e publica-lo é uma experiência sanadora, quando bem acompanhada e dentro de um quadro maior de “ligação” e acolhimento, de libertação e de transformação de todas as pessoas envolvidas. É um testemunho de que todo mundo precisa de mudanças e só podemos fazer isso quando publicamente nos reconhecemos pecadoras e pessoas em necessidade.

    5. Marcas no caminho – memórias para seguir e permanecer

    Quem sabe podemos retirar algumas marcas que o texto propõe para o caminho da reconciliação, resiliência e para o esforço enorme que é permanecer juntas em comunidade, de concordar em discordar e continuar de mãos dadas compartilhando, orando e testemunhando publicamente a revolução que era viver daquele jeito e de que não nos conformamos com os esquemas de morte, violência e exclusão desse mundo (cf Rm 12:2). Imagino que poderia ser:

    • O primeiro grupo que precisa de conversão, são as chamadas lideranças, que detém o poder da governança, da autoridade sobre e do formato ideo-teológico do comportamento (moral) do grupo – metanoia (mudar de olhar/perspectiva/teoria e de atitude)
    • O que está a margem precisa da nossa atenção – ser como criança
    • Reconhecer que a comunidade é uma “escola” (como disse São Bento em sua regra), um lugar para aprender, desaprender e transformar-se – todas as pessoas, bem como sistemas de governança e conduta – “eu vim para os pecadores”…
    • Não escandalizar ninguém, não agir como o “diabo” (aquele ou aquilo que provoca divisões)
    • Ter sublinhado na mente, na perspectiva (no olhar) e no comportamento que desprezar (em sentido amplo da palavra) alguém, especialmente as pessoas mais pequeninas (as que estão em maior situação de vulnerabilidade) não é um comportamento que se espera na comunidade. Precisamos ter APREÇO pelas pessoas, pela vida e por TODAS as pessoas e suas vidas
    • A capacidade de SAIR (ser excêntrica) é indicadora de pertença a comunidade do Reino, sublinhando a necessidade de uma igreja que quer ser ESPAÇO SEGURO e VIVER NO CAMINHO – ir atrás de quem se “desgarra”, investir tempo, recursos para isso, mudar nossa perspectiva sobre “as que dão problema e não se enquadram” – para não deixar ninguém pra trás
    • Dialogar sempre, procurar a relação, insistir na mesma, demonstrar que há amorosa disponibilidade para isso, e quando não for mais possível oferecer espaço para que ambos os lados possam repensar o que passou
    • A liderança da comunidade deve novamente reconhecer que a revelação de Deus continua também ali na discordância e no dissidente e continuar “indo atrás, com respeito pelo espaço da outra pessoa, com mais amor e afinco”, deixar as 99 já convencidas para ir atrás da que se desgarrou porque a igreja tem o PODER de ligar também
    • Orar sempre, sem cessar. A oração é encontro consigo mesma, portanto com Deus que habita em nós e revela-se, através de nós, a outras pessoas. A oração é o lugar amoroso da contemplação que muda e transforma se deixarmos, e não é necessário mais que duas pessoas (para o mundo judaico precisava de 10 homens) para que isso aconteça
    • E continuar insistindo na capacidade de perdoar. O perdão é primeiramente relacionado a você/eu que se sentiu ofendido. É um caminho de unificação interior que se estende e se estenderá a outras pessoas no devido tempo. Quem pecou ou pecou contra eu/você não precisa saber que a perdoamos. Mas nós precisamos desenvolver essa capacidade constante de rever o que acontecer e perdoar (não esquecer obviamente).

    Na espiritualidade e tradição cristã temos rituais (que educam e formam) para lidar com o erro (pecado) e o objetivo desses é insistir que a pessoa pertence ao grupo e deve ser de alguma forma reconectado a este. É  na relação da comunidade que podemos sustentar nosso projeto contra os esquemas desse mundo. Quem sabe termino ilustrando essa conversa com um post que vem circulando há muito tempo pela internet sobre uma tribo (não consegui descobrir qual ainda) na África do Sul que tem um costume alinhado com a proposta de Jesus.

    Há uma “tribo” africana que tem um costume muito bonito. Quando alguém faz algo prejudicial e errado, eles levam a pessoa para o centro da aldeia, e toda a tribo vem e o rodeia. Durante dois dias, eles vão dizer ao homem todas as coisas boas que ele já fez.

    A tribo acredita que cada ser humano vem ao mundo como um ser bom. Cada um de nós desejando segurança, amor, paz, felicidade. Mas às vezes, na busca dessas coisas, as pessoas cometem erros.
    A comunidade enxerga aqueles erros como um grito de socorro.
    Eles se unem então para erguê-lo, para reconectá-lo com sua verdadeira natureza, para lembrá-lo quem ele realmente é, até que ele se lembre totalmente da verdade da qual ele tinha se desconectado temporariamente: “Eu sou bom”.
    Sawabona Shikoba!
    SAWABONA, é um cumprimento usado na África do Sul e quer dizer:
    “Eu te respeito, eu te valorizo. Você é importante pra mim”
    Em resposta as pessoas dizem SHIKOBA,que é:
    “Então, eu existo pra você”

    Que Deus nos abençoe e continue insistindo no caminho conosco. Não porque merecemos, mas porque somos dignos do amor e de amar.

    “Que belos e infinitos são Teus nomes, ó Senhor Deus.

    Tu és chamado pelo nome

    de nossos desejos mais profundos.

    As plantas, se pudessem orar,

    invocariam nas imagens das suas flores mais belas

    e diriam que tens o mais suave perfume.

    Para as borboletas Tu serias uma borboleta,

    a mais bela de todas, as cores mais brilhantes,

    e o teu universo seria um jardim…

    Os que estão com frio Te chamam Sol…

    Aqueles que moram em desertos

    dizem que Teu nome é Fonte das Águas.

    Os ófãos dizem que Tens o rosto de Mãe…

    Os pobres Te invocam como Pão e Esperança.

    Deus, nome de nossos desejos…

    Tantos nomes quantas são nossas esperanças e desejos…

    Poema. Sonho. Mistério” (RUBEM, Alves (org.). CultoArte: celebrando a vida – advento/natal/epifania. Petrópolis: Vozes, 1999)

     
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