Mudar o foco, estratégia possível? 

Penso ser muito importante a igreja integrar-se à campanha mundial dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra mulheres. Sem dúvida, a religião é importante instituição de controle social, pois leva e reitera cotidianamente mensagens de paz, amor, cuidado – enfim de comportamentos socialmente aceitos. Porém, desafiada a escrever sobre o assunto, tive muitas dificuldades para decidir no que focar, já que o texto deveria ser curto. Quando tinha decidido sobre o que falar, eis que tive a atenção desviada por manchete da GZH, no lado direito da tela do meu computador: “Morre mulher esfaqueada dentro de ônibus em Porto Alegre”. São 9h28 min do dia 05.12.2018 e a notícia relata mais um crime que veio engrossar as tristes estatísticas sobre a violência contra a mulher no Brasil, onde as pesquisas oficiais apontam que uma a cada três brasileiras com 16 anos ou mais foi espancada, xingada, ameaçada, agarrada, perseguida, esfaqueada, empurrada ou chutada nos últimos 12 meses. Nosso País, infelizmente, está entre os cincos mais violentos do mundo neste campo de análise e o índice de Feminicídio é alarmante, com muitas mulheres sendo assassinadas a cada hora.

A proposta da Coordenação do SADD prevê que devemos fazer ouvir nossa voz, partilhar nossas dores, frustrações, tristezas e decepções e denunciar as violências que temos sofrido na sociedade ou testemunhamos nas nossas comunidades. Tarefa muito difícil e, de certo ângulo de análise, utópica, pois a violência contra a mulher, regra geral, ocorre no seio da família. O agressor é “pessoa querida”, com quem a mulher mantém vínculo afetivo. Vigora no caso a lei do silêncio. A vergonha se sobrepõe ao grito de socorro. O medo enclausura. Silencia e mata também, aos poucos. Quando disse que a proposta de testemunho, desabafo, relato escrito é utópica, não o faço como crítica, porque sei que a utopia serve muito. Para quê?  Para que não se deixe de caminhar, como ensina o filósofo Eduardo Galeano. A propósito, a canção Utopia, de Zé Vicente, foi a canção-tema de um recente Festival de Música, o 16º Clave de Fé, na minha Paróquia, a Santíssima Trindade, em Pelotas. Nosso Festival é temático. O ano passado falamos de paz. Neste, de esperança. Ainda ouço os acordes e ouço a conclamação; Sim, vamos esperançar! Alegrai-vos, na esperança – Rm 12:12.

Termino, voltando ao início. Mudar o foco, estratégia possível? Não há mais dúvidas, pois as estatísticas comprovam, que a violência contra a mulher faz parte de nosso cotidiano. Porém, os estudos, artigos, reflexões, estratégias de combate, em geral, emanam de grupos femininos. Sou de opinião que se deva mudar o foco. Pensar nos homens, dirigir-se para os homens. Conjugar verbos na voz ativa e não passiva!  Estamos reproduzindo estratégias (válidas, por óbvio, numa fase inicial) de chamar a atenção para as vítimas. Não seria o caso de voltar-se para os grupos dos responsáveis pela violência? Mulheres, não podemos também ser vítimas de nossas próprias estratégias! Qualquer proposta que vise reduzir esse tipo de violência deve incluir homens. Faço parte de uma Associação de Mulheres de Carreira Jurídica (ABMCJ). Por meio desta, ouvi falar de uma iniciativa vinda do Tribunal de Justiça de Goiás. Foram criados,  e os resultados são animadores, “Grupos reflexivos voltados a autores de violência doméstica”. Não seria o caso de criarmos, ou indicarmos, grupos reflexivos de homens para estudar o assunto? Repito, precisamos usar a voz ativa! Quem sabe poderia, por eles próprios, ser preparada uma lista de pequenas coisas que os homens podem fazer para diminuir a violência doméstica? E nosso Clero, já pensou como tratar esse assunto no âmbito da Confissão? Qual a recomendação da Câmara Episcopal? Mudar o foco, é uma estratégia possível?

Texto: Ceres da Silva Meireles – Diocese Anglicana de Pelotas