Feminino, sexo frágil? 

Há uma ideia disseminada no imaginário popular de que “as mulheres são o sexo frágil”. Isso seria um contraponto à afirmação de que os homens são o sexo forte. Hoje em dia é um pouco complicado afirmar seja uma coisa, seja outra, porque não há mais apenas esta divisão binária das sexualidades. Além disso, todos sabemos que no Brasil a maior parte das famílias é chefiada pelas mulheres, e muitas vezes as mulheres são as únicas adultas integrantes das famílias; porque os homens, aqueles fortes do imaginário popular, abortaram seus filhos. Sim, abortaram, porque o aborto masculino não é crime! Não é sequer condenado socialmente! Assim, mulheres que engravidam de crianças com alguma deficiência, ou em momento não planejado (pelos homens) se veem abandonadas à própria sorte, e tendo que lidar com todas as consequências e dificuldades de criarem sozinhas seus rebentos.

Neste sentido, é difícil continuar afirmando que as mulheres são o sexo frágil! Longe disso! Mas são sim, muito mais vulneráveis do que os homens. Isto porque se denunciam abortos masculinos (praticados por seus companheiros, namorados ou maridos), ninguém as ouve, e ainda as culpam. Se denunciam violência, doméstica ou na rua, igualmente não são ouvidas e ainda são igualmente responsabilizadas, seja pela roupa que estavam vestindo, pelo horário e/ou local que estavam frequentando, seja pela “conduta provocativa”. Se reivindicam iguais direitos, de empregabilidade ou de salários, novamente não são ouvidas, porque afinal de contas certamente não terão a mesma produtividade masculina, já que engravidam ou assumem responsabilidade sobre outras pessoas – crianças sob seus cuidados ou pessoas idosas – e com maior frequência certamente deixarão a desejar no resultado do seu trabalho.

Lutar contra todas essas injustiças, perseguições e formas de violência é a rotina das mulheres. Por isso, de frágil nós não temos nada! Mas continuamos cada vez mais vulneráveis! Perpetuar esta vulnerabilidade é mais uma violência contra as mulheres. Apoiar quem violenta as mulheres, seja por sua visão de mundo, seja por atos concretos de violência, é também agir violentamente contra as mulheres. E a violência contra qualquer ser humano é atitude não cristã! Não há como sustentar ao mesmo tempo afirmar ser seguidor de Jesus Cristo e ser violento contra as mulheres. São posturas antagônicas e incompatíveis. Apoiar quem desqualifica as mulheres é, da mesma forma, incompatível com o cristianismo.

Que estes dias de ativismo em defesa das mulheres, e denúncia das violências contra elas seja uma oportunidade para meditarmos em nossas escolhas pessoais, se estamos também nós agindo com violência contra as mulheres (qualquer que seja o nosso gênero) e/ou apoiando aqueles que assim agem. Vejamos ainda quais oportunidades temos de ampliar as possibilidades de ação e decisão femininas, pois apenas quando houver alguma equivalência entre estas possibilidades é que poderemos vislumbrar o fim da vulnerabilidade das mulheres. Que Deus nos dê fé, coragem e força para a luta!

Texto: Eneá de Stutz e Almeida – Diocese Anglicana de Brasília