RELATO 2 – 16 DIAS DE ATIVISMO PELO FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

O interesse inicial pela temática da violência contra mulheres e meninas emergiu a partir de uma prática clínica com adolescentes e famílias na década de 1990, literalmente no século passado. Precisamente em 1999, a convite de uma colega, fui trabalhar numa organização não governamental, em Olinda-PE, que tinha um recorte específico de atendimento sociopedagógico e psicológico a mulheres e meninas em situação de violências.

Quando nos confrontamos com as particularidades da clínica para pessoas em situação de violência de gênero, compreendemos que a universidade não havia incluído em seu currículo as especificidades dessas intervenções. Tal situação nos fez buscar aprimoramento, através de especializações, para fazermos frente a demanda exigida por esses atendimentos. Concomitantemente, recorremos a supervisão dos casos para fortalecer o desempenho do papel profissional.

Os primeiros casos eram de meninas, adolescentes e jovens, que traziam em suas falas as violências sofridas no contexto doméstico e familiar. Em seguida, apareceram alguns casos envolvendo meninos, que geralmente não são tão evidentes quanto as meninas, devido ao próprio contexto cultural. Os meninos atendidos também demonstraram em seus relatos os traços das violências física, psicológica e sexual que marcavam seu cotidiano. As violências que até então conhecíamos apenas por meio de filmes, livros e jornais, agora estavam diante de nossos olhos e ouvidos, tinham cor, endereço, nome e corpo.

Recordamos um caso, muito particular, de uma adolescente, em torno de dezenove anos que trazia o sofrimento marcado no corpo e em sua fala sobre abuso sexual dela e de sua filha de dois anos de idade. Durante o processo psicoterapêutico foi revelado que o pai havia abusado psicológica e sexualmente da filha e da neta. O silêncio estava sendo rompido graças a essa jovem que buscou apoio na organização não governamental e encontrou um espaço de acolhimento.


Outro caso emblemático foi uma história familiar, onde o avô, “patriarca” dessa família, cometeu violência psicológica, física e sexual contra os filhos, filhas, netas e um bisneto. Nesse caso o autor da violência era pastor de uma igreja evangélica da Região Metropolitana de Recife.

Ampliamos a escuta e começamos a ouvir os familiares, as mães principalmente, os pais não apareceram, então, passamos a ouvir as mulheres, que externavam seus sentimentos e suas dores, em função da situação de violência doméstica e da vulnerabilidade social em que viviam.

As falas das adolescentes e das mulheres, que expressavam o desejo de não continuar vivendo essa situação de violência, suscitaram em mim indagações que me fizeram recorrer a literatura relacionada com a violência doméstica e de gênero em busca de respostas. Frente a tais inquietações, procurei, através de minha pesquisa para o mestrado, responder ao questionamento: é possível que essas pessoas rompam com a violência na família?

As mulheres e as meninas sinalizaram em suas experiências que o processo de ruptura das violências inicia a partir da quebra do pacto do silêncio, do refazer dos vínculos de afetos. Consideraram ainda a experiência religiosa e o convívio com os irmãos e irmãs, membros de suas comunidades de fé, um elemento facilitador para o processo de ruptura.

Diante do atual cenário político e social, que se configura como um tempo de resistência, outras perguntas têm surgido no “fazer dessa clínica”, na qual as pessoas são convidadas a protagonizarem suas dores, sofrimentos e exclusões, reescrevendo suas histórias.  Através da fala de Ruben Alves, temos aprendido com essas mulheres, meninas e meninos que “quando a gente abre os olhos, abrem-se as janelas do corpo, e o mundo aparece refletido dentro da gente”.

Texto: Ilcélia Soares – Diocese Anglicana do Recife