Comissão começa trabalhos para desenvolver procedimentos globais de proteção para crianças, mulheres e pessoas vulneráveis nas igrejas da Comunhão Anglicana


Foto: ACNS

Os membros da Comissão para uma Igreja Segura se encontraram em outubro no escritório da Comunhão Anglicana em Londres para sua primeira reunião presencial. Buscando tornar as igrejas da Comunhão Anglicana um lugar seguro para crianças, jovens e adultos vulneráveis, foi estabelecida uma comissão internacional que teve seu primeiro encontro presencial no fim de outubro deste ano. A Comissão para um Igreja Segura da Comunhão Anglicana foi criada pelo Conselho Consultivo Anglicano (ACC) em sua reunião do ano passado em Lusaka; em uma das quatro resoluções sobre o tema.

A comissão foi uma recomendação da Rede para uma Igreja Segura da Comunhão Anglicana[1] – grupo global de clérigos e leigos que emergiu em resposta a preocupação da igreja em diversas províncias da comunhão em que falhas de conduta de clérigos e trabalhadores da igreja tiveram consequências trágicas para aqueles que foram vítimas de abuso, suas famílias e comunidades. A rede, que foi reconhecida pelo ACC em sua reunião de 2012, em Auckland, é um grupo internacional de pessoas comprometidas com o bem-estar físico e emocional e espiritual de todas as pessoas envolvidas em igrejas em toda a Comunhão Anglicana.

Embora a rede tenha um trabalho contínuo para educar as pessoas sobre abuso e má conduta nas igrejas, e para equipar e apoiar as pessoas que trabalham para tornar suas igrejas seguras, a comissão foi criada com a tarefa específica de identificar políticas e procedimentos de proteção atualmente em vigor nas Igrejas da Comunhão; e desenvolver novas diretrizes internacionais a tempo para consideração pelo Conselho Consultivo Anglicano (CCA) em sua próxima reunião em 2019. Na sua resolução de 2016 que estabelece a comissão, o CCA prevê que as diretrizes serão implementadas “na medida do possível” por cada uma das províncias da Comunhão . Apesar de não ter uma rede de proteção estabelecida a Província do Brasil foi convida a compor a comissão, contribuindo com a experiência Latino-Americana na discussão do tema e ao mesmo tempo, como um desafio para sistematizar práticas que garantam um lugar seguro para nossas crianças, mulheres e vulneráveis.

O ACC reafirmou o seu apoio[2] à Carta de Princípio para a Segurança das Pessoas nas Igrejas da Comunhão Anglicana e pediu a cada província que informe na próxima reunião do CCA sobre os passos que tomaram para adotá-la e implementá-la. Eles também concordaram em estabelecer um procedimento internacional para a “liberação de informações sobre adequação do ministério”[3] para que as informações sobre a conduta de sacerdotes e trabalhadores da igreja seja compartilhada antes de transferências entre províncias, evitando que pessoas investigadas utilizem transferências como modo de evitar a investigação de queixas. E eles pediram o tema faça parte do programa da Conferência de Lambeth de 2020[4] – o encontro de todos os bispos anglicanos, que acontece em Canterbury.

O conselheiro sênior Garth Blake, advogado que preside a Comissão para um Ministério Seguro da Igreja Anglicana da Austrália, é o presidente da comissão internacional. Ele descreveu o primeiro encontro da comissão – que ocorreu entre 27 de outubro e 1º de novembro, realizado no escritório de comunhão anglicano em Londres – como “muito encorajador”, dizendo: “nos conhecemos e refletimos honestamente sobre a realidade dos abusos sofridos pelas pessoas, particularmente mulheres e crianças, nas nossas províncias “.

Durante as primeira reunião presencial, os 14 membros da comissão forneceram informações sobre os abusos sofrido pelas pessoas nas suas próprias províncias e as respostas provinciais para prevenir a ocorrência de abuso e os cuidados prestados a pessoas que foram abusadas. “Em algumas províncias existem políticas e procedimentos estabelecidos”, disse Blake. “Em outras províncias há uma cultura de silêncio que dificulta a divulgação de abusos”. No começo do ano que vem, a comissão começará uma pesquisa em todas as províncias, incluindo o Brasil,  para verificar as políticas e os procedimentos atualmente estão implementados nas diferentes igrejas da Comunhão Anglicana.

A comissão refletiu sobre os princípios teológicos subjacentes à Carta de Princípios para a Segurança das Pessoas nas Igrejas da Comunhão Anglicana[5] – documento que foi adotado pelo ACC em sua reunião de 2012 (anexo abaixo). “O testemunho das Escritura sobre o amor de Deus para todos os membros da família humana e a prioridade dada no ministério de Jesus para as crianças e os vulneráveis da sociedade serão fundamentais para o trabalho da comissão”, disse Blake. “Nosso encontro em Londres foi fortalecido pela oportunidade de ouvir a história de pessoas que foram abusadas nos contextos de igrejas na Inglaterra”.

A comissão fez uma análise preliminar das diretrizes para prevenir abusos e para responder a abusos quando este ocorre; e considerou como as mesmas poderiam ser aplicadas aos diferentes contextos das províncias da Comunhão Anglicana. A comissão criou três grupos de trabalho nas áreas de teologia, política e liturgia; e realizará sua próxima reunião presencial em maio próximo, na Cidade do Cabo. “Agradecemos as expressões de apoio e oração para o nosso trabalho na vida da Comunhão”, disse Blake.

A comissão é composta[6] pelo Revd Sereima Divulavou Lomaloma de Fiji; Marcel Cesar Pereira do Brasil; Bispo Cleophas Lunga do Zimbabwe; Rev. Immaculée Nyiransengimana do Ruanda; Bispo Brian Marajh da África do Sul; Bispo Festus Yeboah-Asuamah de Gana; Mary Wells do Canadá; Robin Hammeal-Urban dos EUA; Caroline Venables da Inglaterra, o Arquidiácono Christopher Smith do País de Gales; Rev. Clare Yoon Sook Ham da Coreia; e o CanonAndrew Khoo, co-presidente do comitê de direitos humanos da Ordem dos Advogados da Malásia. A comissão teve como facilitadora Marilyn Redlich, membro da Comissão para um Ministério Seguro da Austrália.

A comissão foi recebida pelo Arcebispo da Cantuária em uma celebração eucarística na cripta do palácio de Lambeth. O Arcebispo expressou seu desejo de que a comissão encontre caminhos para que a igreja não viva em função do medo de abuso, mas do amor fraterno que a une. Fica para o Brasil o desafio de assimilar estes princípios, encontrando sua própria concepção de segurança como utilizar as ferramentas propostas pela Comissão para uma Igreja Segura.

Carta de princípios para uma Igreja Segura

Apoio pastoral onde há abuso

1. Ofereceremos apoio pastoral aos abusados, suas famílias e paróquias afetadas e organizações da igreja:

A. uma. Ouvindo com paciência e compaixão suas experiências e preocupações;

B. Oferecendo assistência espiritual e outras formas de pastoral.

Respostas efetivas ao abuso

2. Teremos e implementaremos políticas e procedimentos para responder adequadamente às alegações de abuso contra o clero e outros funcionários da igreja que incluem:

A. Divulgar nas igrejas o procedimento para fazer queixas;

B. Prover cuidados pastorais para qualquer pessoa que se queixa de abuso;

C. Investigação imparcial de alegações de abuso contra o clero e outro pessoal da igreja, e a avaliação de sua adequação para o futuro ministério;

D. Prover apoio às paróquias afetadas e às organizações da igreja.

Prática de pastoral

3. Adotaremos e promoveremos padrões de educação e treinamento para a prática do ministério pastoral pelo clero e outros funcionários da igreja.

Adequação ao ministério

4. Teremos e implementaremos políticas e procedimentos para avaliar a adequação das pessoas para a ordenação como clero ou nomeação para cargos de responsabilidade na igreja, incluindo verificar seus antecedentes.

Cultura de segurança

5. Promoveremos uma cultura de segurança nas paróquias e nas organizações da igreja por meio da educação e treinamento para ajudar o clero, outros membros da igreja e os participantes a evitar a ocorrência de abuso.

Fonte: http://www.anglicannews.org/news/2017/11/anglican-commission-begins-work-to-develop-global-safeguarding-procedures.aspx



[1] http://acscn.anglicancommunion.org/

[2] http://www.anglicancommunion.org/structures/instruments-of-communion/acc/acc-16/resolutions.aspx#s27

[3] http://www.anglicancommunion.org/structures/instruments-of-communion/acc/acc-16/resolutions.aspx#s27

[4] http://www.anglicancommunion.org/structures/instruments-of-communion/acc/acc-16/resolutions.aspx#s28

[5] http://acscn.anglicancommunion.org/media/99278/Safe-Church-Charter-November-2012.pdf

[6] http://www.anglicannews.org/news/2017/06/membership-of-the-anglican-communion-safe-church-commission-announced.aspx