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  • SNIEAB 17:13 on 24/11/2017 Permalink | Responder
    Tags: , Missão Ecumênica   

    Missão Ecumênica 2017: Marabá e Redenção 

    Representei a IEAB e a Comissão de Incidências Públicas na Missão Ecumênica em Marabá e em Redenção, sul do Pará, entre os dias oito e onze de novembro deste ano. Havia participado da primeira delas que aconteceu em dois mil e quinze, no cone sul matogrossense, nas cidades de Campo Grande e Dourados, em solidariedade ao Povo Guarani Kaiowá e ao CIMI (Conselho Indigenista Missionário) que era alvo de uma CPI estadual.

    A Comissão Pastoral da Terra (CPT) entendeu ser necessária também a solidariedade ecumênica aos acampados e assentados da região sul do Pará que enfrentam uma série de mandados de reintegrações de posse, e cujas vidas estão à mercê de pistoleiros e de policiais.

    É uma das regiões mais violentas do país. Ali ocorreram chacinas como as de Eldorado dos Carajás e Pau D’Arco que vitimaram muitos trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra.

    A Missão Ecumênica organizada pelo Fórum Ecumênico Brasil, Processo de Articulação e Diálogo Internacional, CEBI CESE, CONIC, KOINONIA, CPT, Comitê Brasileiro de Defensores e Defensoras de DH, Diocese de Marabá, Diocese de Conceição do Araguaia contou com a presença de representantes das Igrejas Presbiteriana Unida, Aliança Batista, Luterana, Católica Roma e Anglicana. Também houve representatividade das religiões de Matriz Africana, na pessoa de um Ogam (sacerdote) de Candomblé.

    Na manhã do dia oito de novembro nos reunimos na casa de encontros da Diocese Católica Romana de Marabá para uma celebração de abertura.  Os quatro elementos da natureza (a terra, a água, o fogo e o ar), o indígena, o negro, o camponês sem terra, a Bíblia, a resistência e a solidariedade deram vazão a uma rica liturgia motivadora e comprometedora… Na sequência todos e todas se apresentaram dizendo o nome, a organização, o movimento, a pastoral ou a igreja que estava representando. Militantes da CPT, do MST e de outras organizações que atuam na região contextualizaram a realidade local onde predomina a concentração de terras, a grilagem, a extração mineral em grande escala, a exploração da mão-de-obra, uma considerável presença de acampados e assentados, algumas  aldeias indígenas, pistolagem, policiais a serviço dos poderosos, chacinas, assassinatos de lideranças camponesas, ameaças de morte e muita impunidade…

    Após o almoço nos deslocamos de Marabá para Redenção. Foram seis ou sete horas de viagem em um micro-ônibus. Fomos diretamente para a Câmara Municipal onde aconteceria um ato político/religioso com a presença dos missionários ecumênicos, o Bispo Católico Romano de Conceição do Araguaia, padres e leigos ligados à CPT, outras organizações e movimentos, parentes das vítimas de Pau D’Arco e outras pessoas que fazem parte da Igreja Católica local.

    Na manhã do dia nove de novembro um novo deslocamento agora para o Acampamento Jane Júlia da Liga Camponesa dos Pobres, onde ocorreu a chacina de Pau D’Arco.

    Durante o trajeto uma parada na “Curva do S”, junto ao monumento dos sem terra que tombaram em Eldorado dos Carajás.

    Uma sobrevivente do massacre, militante do MST, fez um breve relato do que aconteceu naquele fatídico dia em que dezenove camponeses sem terra foram assassinados por policiais militares. A comoção se fez presente quando o nome de cada uma das vitimas ia sendo lembrado.

    Em Pau D’Arco fomos acolhidos sob uma cobertura de folhas de buriti por famílias acampadas no local. São quase trezentas famílias que ocupam uma extensa área que já poderia ter sido negociada pelo INCRA, antes mesmo da chacina. Os acampados falaram da dura realidade que enfrentam no dia-a-dia: o medo de novos assassinatos, a impunidade dos assassinos, a insegurança por causa da reintegração de posse em andamento… Porém, expressaram o quanto são resistentes na luta por um pedaço de chão.

    O momento marcante da visita foi junto ao local onde aconteceu a chacina. Um lugar de difícil acesso, em meio a um matagal. Um dos sobreviventes fez um relato do que aconteceu naquele dia. “Nós estávamos em uma área que entendíamos segura. Chovia bastante, vários homens e uma única mulher, a Jane Julia. Estávamos sob a proteção de uma lona preta. Eis que de repetente um grupo de policiais militares e civis de Redenção se aproximou e começou a atirar com armas de grosso calibre. Alguns conseguiram escapar porque perceberam o perigo e correram para o mato. De longe ouvíamos os tiros e os gritos das pessoas que eram executadas. Também ouvíamos os policiais que gritavam muito e xingavam os sem terra”.

    Perfurações de balas nas cabeças e em órgãos vitais provaram que foram execuções à queima roupa. Tais provas só foram possíveis porque coube à Polícia Federal periciar os corpos, examinar o local e levar adiante as investigações.

    Sob algumas árvores, onde estavam os acampados, um par de botinas, um farolete quebrado, restos de roupas, escovas de dente e outros pertences das vítimas…

    Novamente a comoção tomou conta de todos e de todas, e não poderia ser diferente, haja vista a violência desmedida contra os pobres camponeses sem terra.

    Durante a tarde uma audiência na Defensoria Pública do Estado do Pará com dois jovens defensores públicos que acompanham o caso de Pau D’Arco.  Foram eles que intermediaram a vinda de um delegado e equipe especializada da Polícia Federal.

    Por solicitação da Defensoria os policiais envolvidos na chacina foram transferidos para Belém, e dos dezessete acusados, quinze continuam presos e devem ir a júri popular. “É preciso, disseram os Defensores, chegar aos mandantes. Não é tarefa das mais fáceis”.

    Manifestaram certa preocupação quanto à celeridade das investigações, dos julgamentos e das condenações dos réus. Poucos Defensores e uma demanda enorme de questões. Retirada da equipe da Polícia Federal por ordens superiores. Demora na tramitação dos processos.

    Bem de manhã, no dia dez, tomamos o caminho de volta a Marabá. Como era previsto, passamos pelo Acampamento Hugo Chávez, do MST.

    Mais de trezentas famílias ocupam desde dois mil e quatorze uma extensa área de terra que no passado havia sido um imenso castanhal. Sendo de domínio público foi concedido o direito de exploração comercial a um poderoso latifundiário da região. Em não havendo titulação da terra, apenas concessão de exploração, a mesma não poderia ser comercializada (vendida a outras pessoas). O castanhal desapareceu, e a área acabou sendo sucessivamente vendida a vários latifundiários.

    O Acampamento está bem estruturado. Escola fundamental do campo, galpões, horta comunitária e uma produção diferenciada de alimentos orgânicos como o arroz, o feijão, o milho, a mandioca, a abóbora, o açaí…

    Fomos acolhidos em um dos galpões por crianças, adolescentes, jovens, adultos e pessoas já em idade avançada. Como é de praxe em acampamentos do MST, uma mística bem elaborada deu conteúdo àquele momento tão importante de solidariedade e de comprometimento com a luta pela terra.

    O hino do MST, o “grito de guerra” dos sem terrinha e dos sem terra, os relatos dos acampados e as manifestações de solidariedade dos visitantes de lugares tão distantes e diversos ecoaram como um sinal de resistência e de esperança frente ao mandado de reintegração de posse. Ocupar, resistir e produzir…

    O almoço preparado com produtos orgânicos produzidos pelos próprios acampados foi servido lá pelas quatorze horas, e em seguida rumamos para Marabá.

    À noite, antes do jantar de confraternização dos que compuseram a Missão Ecumênica e membros da CPT local, uma avaliação das nossas muitas atividades nestes dias de Missão. O que vimos e o que ouvimos dos acampados e assentados, os encaminhamentos que precisam ser feitos para que a Missão produza algum resultado benéfico para a luta dessa gente que anseia por um pedaço de chão.

    À CPT do Pará, lideranças religiosas próximas e defensores dos Direitos Humanos coube a responsabilidade de acompanhamento das questões que dizem respeito às reintegrações de posse, as ameaças de morte que pesam sobre camponeses (as), Advogados e outras pessoas e sobre as investigações da chacina do Pau D’Arco.

    À CESE, ao CONIC, KOINONIA e outras organizações da Missão Ecumênica o encaminhamento de denúncias junto às organizações internacionais que são solidárias para com a luta dos camponeses(as) sem terra do Brasil.

    Quanto a nós, IEAB, que a nossa solidariedade para com os que lutam por um pedaço de chão, por soberania alimentar, por dignidade, justiça e paz se intensifique ainda mais.  Que informemos às Igrejas que fazem parte da Comunhão Anglicana, particularmente aquelas com as quais mantemos uma maior aproximação, a triste realidade fundiária brasileira que favorece a concentração de terras nas mãos de umas poucas famílias e de grupos econômicos nacionais e internacionais.

    Em Cristo,

    Rev. Luiz Carlos Gabas

    Cascavel, novembro de 2017.

     
  • SNIEAB 8:51 on 20/11/2017 Permalink | Responder  

    Carta da Câmara Episcopal sobre a Conjuntura no Brasil 

    MANIFESTAÇÃO PÚBLICA DA CÂMARA EPISCOPAL DA IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL
    SOBRE A REALIDADE BRASILEIRA

    A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram.
    A verdade brotará da terra, e a justiça olhará desde os céus. (Salmo 85.10-11).

    Reunidos como Câmara Episcopal da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, 19ª Província da Comunhão Anglicana, presente neste país desde 1890, reunida nos dias 17 a 19 de Novembro de 2017, e diante da continua ameaça aos direitos humanos e ambientais promovida pelo Governo Federal, por deputados do Congresso Nacional e por decisões recentes do Supremo Tribunal federal, nos manifestamos, afirmando:

    a. A Lei Trabalhista que entrou em vigor neste mês começa a ter reflexos negativos na vida da classe trabalhadora brasileira, em especial das mulheres gestantes, e pessoas que sofram acidentes de trabalho, sofram imposição de jornadas desumanas, percam a capacidade de reivindicar seus diretos na justiça, e outros tantos prejuízos já apontados por órgãos representativos como OAB e entidades de juízes e juízas do trabalho. Sendo que a promessa de geração de mais de dois milhões de empregos e irreal e enganosa.
    b. A tentativa de liberar a Amazônia Legal para a mineração, e o abandono da fiscalização em todo o território nacional, já apresenta números alarmantes como o desmatamento no Bioma Cerrado (maior do que no Amazônico) e o avanço de mineradoras em Minas Gerais, sem contar o descaso ao atendimento das famílias e áreas afetadas pelo desastre ecológico promovido pela Samarco e suas proprietárias Vale e Billiton BHP.
    c. A retirada dos Planos Nacionais, Estaduais e, em muitos casos, Municipais de Educação da abordagem de questões de gênero e orientação sexual, a reforma tecnicista do Ensino Médio retirando as disciplinas que promovem o pensamento crítico e criatividade, além da liberação do ensino religioso confessional atentando contra a educação laica, universal e de qualidade para todas as pessoas. Alertando também para o desmonte das políticas públicas a partir do congelamento orçamentário nesta área nos próximos vinte anos.
    d. Também nos colocamos em clara oposição as novas tentativas de redução da maioridade penal mostram a falta de visão de justiça restaurativa, que promova a recuperação das nossas crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social.
    e. A Reforma Política não tem avançado substancialmente em nenhuma questão de fundo que retira a ação corruptora das grandes empresas, organizações empresariais e interesses multinacionais sobre o processo eleitoral e, consequentemente, sobre o caráter republicano do Congresso Nacional, como o consequente perigo que isso traz para propostas parlamentaristas.
    f. Também nos preocupa a ação contra tradições religiosas de matriz africana, que integram de forma inegável a base da cultura e religiosidade brasileira, desrespeitadas por decisões judiciais através de argumentos não legais e estranhos a sua matriz religiosa que promovem ainda mais o ódio e a discriminação.

    Finalmente declaramos nosso compromisso de nos unir a todas as Igrejas Cristãs, Organismos Ecumênicos e Interreligiosos, Movimentos Populares e Sindicais e outras entidades da sociedade civil organizada, visando impedir a Reforma da Previdência sobre a qual já nos manifestamos, e a manipulação financeira de votos no Congresso Nacional para conseguir a aprovação de questões de interesse do Executivo, e na esperança de um processo eleitoral aberto e grande discussão das questões nacionais em 2018.

    Brasilia, 20 de novembro de 2017
    Dia Nacional da Consciência Negra

    Revmo. Francisco de Assis da Silva – Bispo Primaz e Bispo da Diocese Sul Ocidental;
    Revmo. Naudal Alves Gomes – Bispo da Diocese Anglicana de Curitiba;
    Revmo. Maurício José Araújo de Andrade – Bispo da Diocese Anglicana de Brasília;
    Revmo. Saulo Maurício de Barros – Bispo da Diocese da Amazônia;
    Revmo. Renato da Cruz Raatz – Bispo da Diocese Anglicana de Pelotas;
    Revmo. Humberto Maiztegui Gonçalves – Bispo da Diocese Meridional
    Revmo. Revmo. Flavio Augusto Borges Irala – Bispo da Diocese Anglicana de São Paulo;
    Revmo. João Câncio Peixoto Filho – Bispo da Diocese Anglicana do Recife;
    Revmo Eduardo Coelho Grillo – Bispo da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro
    Revmo Almir dos Santos, Emérito
    Revmo Celso Franco de Oliveira, Emérito
    Revmo Filadelfo de Oliveira Neto, Emérito
    Revmo Jubal Pereira Neves, Emérito

     
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