Encontro de Fé e Território teve a presença da Aliança Anglicana

Comunidades locais da América Latina, que enfrentam grande ameaças para garantir suas terras comuns dos interesses de poderosas corporações  privadas, continuam fazendo teologia em defesa da sua luta e da sua vida. As lideranças religiosas querem ser “cumpridoras da Palavra, não somente ouvintes da mesma”.

Essa foi uma das fortes mensagens enviadas do encontro de Fé e Território que aconteceu em São Paulo no final de setembro de 2015. Foi o quarto encontro dessa natureza: “Nós chamamos a atenção para a necessidade de  recuperar a teologia e espiritualidade vindas do Primeiro e Segundo Testamento judeu-cristão onde Deus está comprometido, por amor, com os mais vulnerareis pela justiça, onde a terra é considerada um dom, uma herança que não pode ser concentrada, destruída ou mercantilizada”, disseram as participantes na carta final. “A partir dessa profunda convicção, verdadeira teologia é baseada no amor e solidariedade com as pessoas e o planeta em situação de vulnerabilidade”, elas disseram.

Sob o lema “A força da fé em movimento de defesa dos territórios”, as participantes exploraram a conexão entre prática religiosa e espiritualidade, e a importante preocupação em defender os territórios onde se vive – a oikoumene ou a casa comum. Particularmente, as participantes trabalharam como a fé é vivida onde o território é considerado um objeto para um tipo de desenvolvimento que está unicamente preocupado com lucro e privilegiar uma minoria, ao custo de degradar a humanidade e a natureza.

O objetivo do encontro foi considerar outros paradigmas teológicos e práxicos para dar suporte ás lutas por sustentabilidade, resiliência e eco justiça. O facilitador regional para América Latina e Caribe da Aliança Anglicana, Paulo Ueti, foi um dos participantes do encontro. “Comunidades locais – sejam indígenas, afrodescendentes, quilombolas ou camponesas e urbanas – enfrentam o poder monstruoso dos megaprojetos, corporações transnacionais”, ele disse em resposta ao testemunho de representante de comunidades locais que compartilharam suas lutas para salvaguardar a integridade de nossa casa comum, enfrentando o poder das companhias de petróleo e mineração, monocultivo e militarização. “Práticas e crenças tradicionais tem sido perdidas, sufocadas, criminalizadas, as vezes intencionalmente descuidas através dos atos passados de conquista, colonização e genocídio físico e epistemológico”, ele disse. “Isto continua ainda hoje com a invasão das indústrias, onde o agronegócio, companhias mineradoras e projetos de mega infraestrutura afetam a natureza e as comunidades mais vulneráveis. Teólogas/os vindas/os da IEAB, da Rede Cristã Internacional Oscar Romero em Solidariedade com os Povos da América Latina (SICSAL), da Comissão Pastoral da Terra (ICAR), do CONIC-Conselho Nacional de Igrejas do Brasil, e da ONG Povo Índio do Equador foram convidadas/os para colaborar e levar adiante a reflexão sobre as conexões entre as lutas atuais pela eco justiça e as expressões passadas e presentes de fé e espiritualidades.“Nós acolhemos esse jeito de fazer teologia enraizado nos territórios e na vida cotidiana e incentivamos que isso aconteça em outras partes da Comunhão Anglicana”, disse Rev. Andy Bowerman, codiretor da Aliança Anglicana.

“Nós estamos muito encorajados para ver os resultados desse encontro. Nós nos asseguraremos que esses esforços e vozes sejam ouvidas em toda a Comunhão neste tempo em que construímos um “momentum” e uma peregrinação em direção a COP21, Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, em Paris em Dezembro desse ano”, acrescentou Rev. Bowerman.

A Aliança Anglicana está comprometida não só de ser um canal para as vozes silenciadas historicamente, mas também para ecoar e aumentar o volume das vozes marginalizadas para que sejam ouvidas nos centros de poder e influência.