Moção de repúdio à violência contra os haitianos na cidade de São Paulo

Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim: não dizemos

nada. Na segunda, já não se escondem. Pisam as flores, matam o nosso cão e não

dizemos nada. Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-

nos a luz e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.

(Bertolt Brecht)

O Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI) vem a público manifestar veemente seu REPÚDIO aos atos violentos ocorridos com um grupo de haitianos atacado na Baixada do Glicério, região central de São Paulo, na noite do dia 01 de agosto de 2015. Eles foram alvejados por balas de chumbinho e insultados em sua dignidade humana.

É emblemático que em pleno século XXI, no Brasil atual que ergue a bandeira da democracia e dos direitos, cujo corolário é o princípio do acolhimento, ocorram fatos de tamanha gravidade. Contrariamente, demonstra-se que as leis não são igualmente aplicadas para todos, os direitos não são universais, os mais fortes ousam impor sua vontade sobre os mais fracos.

Desse modo, não é de se estranhar que a violência tenha se apropriado do cotidiano das pessoas, as leis não sejam igualmente aplicadas, os mais fortes imponham sua vontade sob a ameaça e o uso da força. Além disso, somos cercados por uma falsa consciência, que vive um tipo
particular de racismo: um racismo silencioso, que ora nega o preconceito racial, ora o reconhece como o mais brando, ou ainda que ele existe, mas na pessoa que mora ao lado.

Dia após dia, a intolerância em relação aos imigrantes pobres vai-se disseminado, como bem demonstra o atentado contra os haitianos.
Diante dessa realidade, o CAMI solidariza-se com todas as vítimas de discriminação e violência, particularmente com haitianos vitimizados e
reafirmamos que nossa luta é para que as instituições do campo da segurança pública previnam e coíbam qualquer tipo de crime, coerente com sua missão constitucional, eminentemente democrática, protetora da cidadania, da vida e da dignidade humana.

Desse modo, REPUDIAMOS qualquer tipo de discriminação, xenofobia, racismo e violência contra os/as imigrantes, exigimos a punição dos
agressores, proteção aos injustiçados e desamparados, que haja maior conexão entre políticas de segurança pública e políticas de proteção aos
direitos humanos, capazes de tornar a nossa sociedade mais justa, solidária e internamente pacífica.

Como afirma o Manifesto da 6ª Marcha dos Imigrantes, “Cremos em um mundo criado sem fronteiras que impeçam o livre trânsito da humanidade em benefício dela mesma, onde as fronteiras foram criadas por homens desejosos apenas da manutenção e controle das riquezas e do poder, em detrimento da fraternidade e da paz.”

Cremos também, como afirma Boaventura Souza Santos, “as pessoas e os grupos sociais têm o direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza, e o direito a ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza.”

Assim, REPUDIAMOS toda e qualquer tentativa de discriminar, expor, humilhar, ridicularizar, desqualificar, atacar a honra moral, violar os direitos humanos e de praticar violência contra os imigrantes residentes no Brasil. Como preconizou a 8ª Marcha dos Imigrantes, “Basta de Violência contra os/as Imigrantes!”

Centro de Apoio e Pastoral do Migrante – CAMI