Mensagem do Primaz sobre a Semana de Combate ao tráfico de pessoas

Irmãos e Irmãs,

“Nenhum corpo humano pode ser, em qualquer circunstância, objeto de escravidão”

Arcebispo Justin Welby

Nesta semana é celebrado internacionalmente a Campanha contra o Tráfico de Pessoas. Esta é uma tragédia humana que somente nos últimos anos tem sido percebida por governos e entidades não governamentais. Em nosso país, constantes denúncias tem se avolumado à partir de organismos de direitos humanos e entre diversas categorias que caracterizam o tráfico de seres humanos, se encontram o trabalho escravo, o tráfico de órgãos e a exploração sexual de meninas e meninos, bem como a adoção ilegal de crianças. O tráfico não tem fronteiras e é cometido tanto dentro do Brasil como para o exterior. Segundo estatísticas levantadas por diversos organismos internacionais, o Brasil está em décimo lugar no mundo em termos de ocorrências constatadas, isso sem falar nos casos que permanecem não identificados.

A consciência da sociedade brasileira precisa aumentar sobre este silencioso e obscuro problema, que movimenta pelo menos 30 bilhões de dólares no mundo, enriquecendo verdadeiras máfias internacionais e nacionais. São pessoas, no caso de adultos e de crianças, que são atraídas para um mundo de sonhos que se transformam em pesadelos. A exploração econômica e social as submete a condições de vida indigna e muitas vezes fatal.

A Igreja reafirma seu compromisso com a dignidade humana e se coloca enfaticamente contra esse processo criminoso. Todo ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus e portador de uma dignidade ontológica que não deve ser violada. Nenhuma pessoa pode ser obrigada a abrir mão de sua capacidade de escolha de trabalho, sua liberdade e sua mobilidade. A ninguém deve ser imposto a privação de sua liberdade e nem ser usado como mercadoria a troco de interesses econômicos escusos. Não importa a idade, condição social nem gênero.

A Organização das Nações Unidas promove esta semana um conjunto de atividades no mundo inteiro, numa Campanha denominada Coração Azul, na qual esclarecimentos sobre o problema acontecerão com o apoio de organismos governamentais, Igrejas e organizações sociais. No Brasil estão previstas diversas ações em praticamente todos os estados.

Nossa Igreja Anglicana, através do Arcebispo de Cantuária, subscreveu juntamente com outras 11 religiões um pacto pela eliminação do tráfico de pessoas para trabalho escravo em dezembro do ano passado. Em várias Províncias da Comunhão, ações de capacitação estão se realizando e nossa Província do Brasil precisa se envolver concretamente com o tema.

Conclamo nossa Província a se engajar com o tema. Que as dioceses e paróquias reservem um tempo para se reunir e discutir o tema e que se ofereçam orações pelas vítimas e por suas famílias. Estas ações podem ser feitas em conjunto com outras Igrejas e com organismos de defesa dos direitos humanos. Se não houver localmente uma rede de entidades que estejam realizando atividades nesta semana, façam internamente  nas paróquias.

Que Deus nos inspire a considerar este tempo como ocasião para nos apropriarmos do tema e para conscientizar nossas comunidades na direção da defesa das vítimas, na prevenção deste crime e na palavra profética onde quer que estejamos.

Que Deus abençoe a tod@s

++ Francisco, Primaz do Brasil