CARTA PASTORAL DA CÂMARA DOS BISPOS SOBRE AS ELEIÇÕES 2014

Ó Deus, dá aos que governam os teus juízos, e a tua justiça aos filhos dos que governam. Sl 72,1


Estamos nos aproximando de mais um pleito eleitoral em nosso país no qual iremos escolher os mandatários dos cargos governamentais e de representação nas Assembleias Legislativas e Con- gresso Nacional. Desde 1985 o povo brasileiro tem livremente escolhidos seus representantes e de- vemos manter vivo em nossa memória o custo dessa conquista e o valor das liberdades civis e políticas. Entendemos que a liberdade de escolha é um dom de Deus que devemos preservar.

Um dos componentes essenciais do exercício da liberdade de escolha é a avaliação das opções disponíveis. Isto vale para todas as situações, raramente a realidade nos confronta com situações sem alternativa. Porém, algumas vezes o desencanto com a política se transforma em cinismo. Pessoas são levadas a suspender sua capacidade de julgamento da realidade e passam a acreditar que ninguém tem autoridade moral para liderar politicamente.

Exortamos os(as) anglicanos(as) brasileiros(as) à responsabilidade de agirmos de forma íntegra no mundo público e isto nos inclui como eleitores(as) tanto quanto como candidatos(as). Cremos no Deus de amor e justiça que nos guia e aponta caminhos em todas as circunstâncias. Encorajamos nossos irmãos e irmãs a se colocarem em reflexão e escuta da voz de Deus nesse momento, para discernirem o que lhes pareça melhor para sua comunidade local e para nosso país. Entendemos que a vida é plural, que há muitas perspectivas possíveis de compreensão da realidade e que isto significa faremos escolhas diferentes. Estamos certos de que responderemos com fidelidade ao chamado de Deus se o fizermos inspirados pelos princípios da justiça e da solidariedade com os mais pobres e marginalizados.

O momento eleitoral é uma oportunidade de testemunharmos sobre os valores que acreditamos de- vam prevalecer no mundo público, mas também de apostarmos em projetos para o país, em trans-

formações que beneficiem a maioria do povo, em políticas e leis que façam avançar as causas da justiça, da igualdade e da liberdade.

Um traço bastante claro da política brasileira nos últimos anos tem sido a presença visível das can- didaturas religiosas. Não apenas pessoas têm se sentido chamadas a disputarem eleições tendo sua posição de fé como marca distintiva, como igrejas e outras organizações religiosas têm apoiado publicamente candidaturas. A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil valoriza essa prática como sinal da preocupação ético-política das religiões com os destinos da sociedade brasileira, desde que essa ação esteja orientada para o bem comum e não leve a uma apropriação do mundo público por agendas específicas e valores de grupos religiosos, violando a liberdade de crença e de pensamento dos demais cidadãos e cidadãs.

Ao mesmo tempo, advertimos nossos irmãos e irmãs para a necessidade de discernimento em re- lação aos seguintes pontos:

a)      o estado brasileiro deve assegurar condições iguais às pessoas de todas as religiões e de nenhu- ma, não podendo ser utilizado para impor os valores que correspondem a algumas tradições de fé como se fossem de todas. A defesa do estado laico, pluralista e democrático, bem como do debate aberto sobre a fundamentação ética que queiramos dar a nossas escolhas políticas são pilares da visão anglicana no contexto brasileiro;

b)      o pertencimento à igreja cristã não nos torna infalíveis nem mais justos do que os outros. Isso significa que precisamos continuar a exercer nosso discernimento com seriedade para escolher quem melhor corresponda as nossas expectativas e aspirações de um mundo justo e fraterno. A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil não possui candidatos(as), nem apoia oficialmente, em cir- cunstâncias normais de disputa eleitoral, qualquer candidatura;

c)       o discernimento deve ser basear tanto na integridade pessoal dos(as) candidatos(as) quanto na sua trajetória política.

Assim, conclamamos a todos(as) os(as) anglicanos(as) brasileiros a agirem com compromisso re- publicano neste momento e a darem seu testemunho de fé de modo a que nossas paróquias e comu- nidades sejam lugares de conscientização e debate cívico sobre os destinos dos estados e da nação brasileira e nossos posicionamentos pessoais sejam oportunidades de testemunho coerente da nossa visão plural da fé sobre os assuntos públicos.

Santa Maria, 14 de setembro de 2014

Dom Francisco de Assis da Silva, Bispo Primaz e Diocesano da Sul Ocidental

Dom Naudal Gomes, Bispo da Diocese Anglicana de Curitiba

Dom Filadelfo Oliveira, Bispo da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro

Dom Mauricio Andrade, Bispo da Diocese Anglicana de Brasilia

Dom Saulo Barros, Bispo da Diocese Anglicana da Amazônia

Dom Renato Raatz, Bispo da Diocese Anglicana de Pelotas

Dom Flavio Irala, Bispo da Diocese Anglicana de São Paulo

Dom Humberto Maiztegui, Bispo da Diocese Meridional

Dom João Peixoto, Bispo da Diocese Anglicana do Recife

Dom Orlando Santos de Oliveira, Emérito

Dom Almir dos Santos, Emérito

Dom Clóvis Erly Rodrigues, Emérito

Dom Jubal Pereira Pereira Neves, Emérito