Incidência Pública do Serviço Anglicano em Rondônia

Violência de gênero: qual o papel da comunidade de fé?

A cada 15 segundos, uma mulher é espancada no Brasil. Segundo a Fundação Perseu Abramo, 70% dos casos de violência contra as mulheres acontecem dentro de casa e o autor dessa violência é uma pessoa com quem ela mantém ou manteve algum vínculo de afeto. Pesquisa realizada pelo Instituto Patrícia Galvão em 2006, afirma que 51% da população brasileira conhece uma mulher que é ou foi vítima de algum tipo de violência  pelo companheiro.

Diante dessa realidade, a Casa de apoio Noeli dos Santos em parceria com Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento (SADD) e o Ministério Público de Rondônia (MPRO) promoveram, nos dias de 22 a 24 de novembro de 2012, o III Seminário de Capacitação Contra a Violência Domestica, onde aconteceu o curso Violências contra as Mulheres: Diálogos, Direitos e Enfretamento. O objetivo era fortalecer a rede de apoio e enfrentamento às violências contra mulheres da cidade de Ariquemes-RO.

Frente à complexidade do fenômeno da violência, deparamo-nos com a relevância da rede de apoio e serviços no processo de ruptura das violências e a dimensão de sua existência.  A rede deve integrar as instituições que a compõem, com a finalidade de manter o vínculo por meio de ações ou trabalhos conjuntos no enfrentamento às violencias contra as mulheres.

Nas redes estão envolvidas as Unidades de Saúde do SUS (Pronto Atendimento, Setores de Emergência e da Assistência Hospitalar; Serviços de Saúde Mental) o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), o Ministério Público, e o Conselho Municipal dos Direitos a Secretarias de Governo (Secretarias de Ação Social e da Mulher, por exemplo),  Delegacia da Mulher, Casa de Apoio e Centros de Referência.

A rede de Ariquemes, contudo, existe e apresenta um perfil muito particular. Mapiar e identificar seus/suas ator@s foi um dos resultados desse trabalho: são pessoas, grupos e instituições e todos e todas participaram ativamente do curso, conforme discriminado abaixo:

Atores sociais Instituições
Equipe Técnica Casa Noeli dos Santos
Cabos, Tenentes, Sargentos e agentes penitenciários Policia Civil e Militar
Secretarias:

SEMDES – Secretaria de Desenvolvimento Social,

SEMED – Secretária de Educação,

SESAU – Secretaria de Saúde

Poder Executivo: Secretarias Municipais
Delegada da DDM e Delegado Regional Secretaria Estadual de Segurança Pública
Diretora Hospital Regional
Agente de Saúde UBSs – Unidade Básica de Saúde (setor 2, 9 e 10 – estratégia da família e referência em Hanseníase. Tuberculose, leishemaniose, e os testes rápidos de HIV/Sífilis/Hepatite)
Psicólogas, assistentes sociais e coordenadoras. CRAS – Centro de Referência de Ação Social

CREAS - Centro de Referência Especializada de Ação Social

CAPES - Centro de Apoio Psicossocial

Alunas Faculdade Unopar
Coordenadora PRONATEC – Programa Nacional de Jovem Aprendiz
Professoras Escolas Estadual e Municipal
Lideranças religiosas Protestantes e Católicas
Assistente Social da equipe psicossocial do Fórum e Promotor de Justiça, Poder Judiciário (Fórum, Ministério Público )
Assessoras do presidente da Câmara de Vereadores Poder Legislativo

As palestrantes de diferentes profissões e regiões do país – norte, sudeste e nordeste – abordaram os temas de forma participativa, com exposições dialogadas e trabalhos em grupos.

Promotora de justiça Priscila Matzembacher – Expôs a lei Maria da Penha: o histórico, seus principais artigos e medidas protetivas que asseguram a integridade e os direitos das mulheres.

Assistente Social Ester Leite Lisboa (leiga e membro da Diocese Anglicana de São Paulo) – Fez um resgate histórico da compreensão de gênero, desde a Idade Média, e das lutas e vitórias das mulheres que marcaram e construíram a história. Apresentou questões relativas à diversidade, as relações e equidade de gênero, os papéis sociais e a heteronormatividade, permitindo uma reflexão sobre direitos humanos.

Psicóloga Ilcélia Alves Soares (leiga e membro da Diocese Anglicana do Recife)– Falou sobre as violências contra as Mulheres – Diálogos e Enfrentamentos -  através dos conceitos e formas de violência de gênero, aspectos psicossociais e impactos das violências na vida das mulheres e de suas famílias, possibilidades de rupturas das violências. Apresentou ainda a rede de enfretamento e seus serviços e políticas de atendimento às mulheres de Ariquemes.

Esse curso é fruto de dois anos de trabalho da Reverenda Elineide Ferreira Oliveira, Reverendo Hugo Armando Sanchez, juntamente com Lúcia e Rejanne Sanchez e outras representantes da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), resultado de ações constituídas cotidianamente para estabelecer uma cultura de paz em Ariquemes.

Respeitando a laicidade do Estado, Elineide e Hugo, representando a Igreja Episcopal Anglicana local, vinculada ao Distrito Missionário Anglicano, têm dialogado com o Poder Público, a rede de atendimento às mulheres, Secretarias Municipais, instituições e sociedade civil com o desejo de pensar e realizar trabalhos pautados na justiça e equidade para todos e todas.

Casa de Apoio e Acolhimento Noeli dos Santos


A ideia da casa de apoio surgiu em uma conversa entre o reverendo Hugo Sanchez e a jornalista Cássia Bardi, na época, coordenadora do Centro de Referência de Assistência Social. Cássia recomendou um espaço de acolhimento a mulheres que viviam em situação de violência. A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil aceitou o desafio e juntamente com a Associação Anglicana Desmond Tutu criaram a Casa de Apoio e Acolhimento Noeli Dos Santos, única no estado de Rondônia.

A Casa de Apoio Noeli dos Santos acolhe as mulheres que vivem em situação de violência de gênero, viabiliza o atendimento psicológico, clinico e social dessas mulheres, realiza encaminhamentos jurídicos aos órgãos competentes, e capacita profissionalmente as mulheres para o mercado de trabalho. Promove também conscientização de seus direitos e reinserção na sociedade. A Reverenda Elineide Ferreira Oliveira coordena a casa que tem capacidade de acolher mulheres com seus filhos por um período mínimo de um dia e máximo de 90 dias. Esses prazos também são resultados da humanização do trabalho.

Por fim, pedimos licença ao poeta para reafirmar que essa caminhada também tem sua canção e que todas as Marias/Mulheres “É a dose mais forte e lenta de uma gente que rí quando deve chorar. E não vive, apenas aguenta” - hoje, não mais caladas, elas rompem o silêncio e acreditam: que “…é preciso ter manha”. É preciso ter graça, É preciso ter sonho sempre, Quem traz na pele essa marca, Possui a estranha mania, De ter fé na vida”.

Por Ilcélia Alves Soares