Carta do Bispo Primaz da IEAB sobre a Rio+20

A Igreja Anglicana e a Rio+20

“Tomou, pois, o Senhor Deus a humanidade

e a colocou no Jardim do Éden

para cultivar/servir e guardar”

(Gênesis 2:15)


No contexto  da reflexão sobre o cuidado com o planeta, diante do gemido da natureza  e na certeza de que cada pessoa, em sua diferente realidade, precisa se envolver e desenvolver ações concretas de cuidado com a Criação, convido a Comunhão Anglicana a comprometer-se rumo à Rio +20 – Conferência da Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável –  através da participação na Cúpula dos Povos, entre os dias 13 a 22 de junho, na cidade do Rio de Janeiro/Brasil.

A Rio+20  fechará  um importante ciclo iniciado na Eco-92. A Cúpula dos Povos, movimento da sociedade civil organizada, poderá proporcionar um reencontro com o centro da fé cristã, expresso no amor incondicional do Criador para com a Criação, através de um presente e um futuro justo, ético, transformado e sustentável. Ou simplesmente, poderá passar ao largo das nossas vidas, mantendo a hegemonia daqueles que querem o lucro fácil à custa da sangria da natureza e dos povos empobrecidos e excluídos.

É importante perceber o que está envolvido nessa  Conferência, se vamos seguir adiante com esse modelo de produção e consumo insustentável, privilegiador de um pequeno grupo, ou se iniciaremos uma transformação para outros modelos, como já afirmou a Eco-92 e tantas outras conferências da ONU que infelizmente os governos e as corporações transnacionais negam-se cumprir com suas responsabilidades.

Somos testemunhas que a civilização humana enfrenta uma crise multidimensional abrangendo aspectos econômicos, sociais, ambientais, culturais e por que não dizer, espirituais. Em nosso modo de ver, uma crise de valores que anuncia o ocaso da velha civilização. Igualmente poderá significar a aurora de um novo tempo para todos nós, irmãos e irmãs que habitamos a mesma casa comum. Nesse sentido, nos inspiremos  no exemplo daquele que “acreditou contra toda esperança” (Rom 4:18) e colaborou  para que a vida da humanidade fosse mais abundante.

A palavra profética de Gênesis 2:15, nos convoca a uma responsabilidade impar de cuidar e de zelar nosso jardim comum, como obra da Criação, continuação da revelação do Deus da Misericórdia e da Justiça.

Nós continuamos a Missio Dei que deve ser a Missio Ecclesia, ou seja: dizer uma palavra e criar, mas não destruir; apresentar-se e libertar e não escravizar ou privatizar; encarnar-se e solidarizar-se e jamais imperializar-se;  gerar a vida e o cuidado e sem abandonar ou silenciar. Assim, somos desafiados a  “lutar pela salvaguarda da integridade da criação, sustento e renovação da terra”, uma das Cinco Marcas da Missão do Conselho Consultivo Anglicano.

Nosso planeta geme e chora esperando pela redenção. Nossos povos clamam porque a mão dos opressores pesa sobre eles. Precisamos ouvir, como Deus escutou o clamor do oprimido, conheceu seu sofrimento e desceu para libertar. Escutar como fez Jesus com os discípulos no caminho de Emaús, andando com eles, lhes dando coragem e energia para testemunhar que outro mundo é possível.

É com esperança, ousadia e fé renovada convoco a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e a Comunhão Anglicana a assumirem seu dever profético de “cuidar da Criação”, apoiar as iniciativas da sociedade civil organizada e apelar aos governos para assumirem sua responsabilidade para com a vida do planeta.

Esse momento deve ser de denúncia do modelo economicista e excludente, e que possamos buscar a construção da Justiça Social e Ambiental, da defesa dos direitos dos povos e da natureza, do fortalecimento da consciência ecológica nas religiões e tradições espirituais, do início da transição de um modelo de civilização insustentável para uma nova civilização, justa, fraterna, pacífica, ética e sustentável.

Encorajo às Províncias Anglicanas a assumirem suas responsabilidades, orientando suas dioceses, o clero e as comunidades a participarem ativamente do processo da Rio+20, incluindo as iniciativas da Cúpula dos Povos e do espaço Religiões por Direitos.

Na certeza de que este será o caminho para vivermos a plenitude da vida (cf. Jo10:10),

Brasília, 03 de maio de 2012

+ Dom Mauricio Andrade

Bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB)