Mensagem de Páscoa do Arcebispo de Cantuária 

Em sua Carta Pascal ecumênica aos colegas líderes eclesiais, o Arcebispo de Cantuária insta as pessoas que residem em ambientes politicamente seguros a oferecer apoio prático e orações aos cristãos que sofrem ao redor do mundo, particularmente em Zimbábue, em Mosul, no Egito e na Nigéria:

“Precisamos manter nossos próprios receios em perspectiva. É muito fácil se consumir de ansiedade sobre o futuro da Igreja e da sociedade. Precisamos dar um testemunho corajoso e claro, mas não com raiva ou medo; precisamos mostrar que cremos no que dizemos sobre a Senhoria do Cristo Ressurreto e sua fidelidade ao mundo que veio resgatar”.

O texto completo de sua mensagem encontra-se a seguir, e é de tradução de William Steinmetz, membro da equipe de tradutores da IEAB.

Quando São João nos conta que os discípulos se encontraram a portas trancadas no primeiro dia de Páscoa (John 20.19), ele nos lembra que nunca foi fácil ou seguro ser associado a Jesus Cristo. Hoje, isso fica evidente em uma ampla variedade de situações – seja na terrível violência comunal que aflige partes da Nigéria, na carnificina e intimidação dos cristãos em Mosul nas semanas recentes, nos ataques aos fiéis coptas no Egito, ou no assédio constante das congregações anglicanas em Zimbábue.
Enquanto observamos o trigésimo aniversário do martírio do Arcebispo Oscar Romero em El Salvador, reconhecemos que os cristãos nunca estarão seguros em um mundo de injustiça e receio inconsciente, porque os cristãos sempre defenderão a esperança de um mundo diferente, em que os poderosos tenham que abrir mão de privilégios e redescobrir-se na qualidade de servos e os pobres sejam erguidos em alegria e liberdade.

Esta esperança está arraigada na ressurreição do Senhor Jesus. Seu ressurgimento dos mortos mostra ao mundo que a morte não tem a última palavra – seja morte do amor, morte da segurança, até a morte do próprio corpo. No primeiro dia da semana, o primeiro dia da nova criação, Deus anda mais uma vez no jardim e começa a remoldar por completo o mundo das nossas experiências e nossas possibilidades; o Segundo Adão acorda sob a árvore da cruz e promete vida nova, liberdade e perdão a todo os seres humanos.

Por onde quer que prevaleça o medo, esta promessa será vista como perigosa. Mas as pessoas ainda têm a coragem de se identificarem como cristãos porque sabem que a ressurreição demonstra que Jesus fica além de todo poder e violência humanos, que ‘todo o poder no céu e na terra’ é dado a Ele (Mateus 28.18). O cristão pode sofrer e morrer enquanto testemunha esta verdade, mas a morte em si não poderá extinguir o poder constante de Cristo de transformar e renovar; o mártir sabe disso
e fixa seus olhos naquela alegre visão.

Nós, que moramos em ambientes mais confortáveis, precisamos ficar com duas coisas em mente. Uma é que os irmãos cristãos, sob pressão, que vivem diariamente entre ameaças e assassinatos, precisam das nossas orações e apoio tangível – por meio de contato pessoal e de lembranças constantes aos nossos governos e à mídia desses fatos. Para um cristão que vive estas ameaças, é mais importante do que a maioria de nós poderia imaginar simplesmente saber que não estão sozinhos nem esquecidos. Mas o segundo ponto a lembrar é que precisamos manter nossos próprios medos em perspectiva. É muito fácil, mesmo nas sociedades confortáveis e em situação relativa de paz, nos consumirmos de ansiedade sobre o futuro da Igreja e da sociedade. Precisamos dar um testemunho corajoso e claro, mas não com raiva ou medo; precisamos mostrar que cremos no que dizemos sobre a Senhoria do Cristo Ressurreto e sua fidelidade ao mundo que veio resgatar.

O mundo não será salvo pelo medo, mas sim pela esperança e a alegria. O milagre da alegria demonstrada pelos mártires e confessores da fé é um dos testemunhos que mais levam ao evangelho de Jesus. Devemos, na forma que nos é possível, procurar comunicar esta alegria, por mais escuro ou incerto que pareça o céu. Toda autoridade pertence a Jesus, e nas mãos machucadas dele é colocado o futuro de todas as coisas no céu e na terra.

A Ele seja a glória para sempre.

Rowan Cantuar +

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Rev. Cônego Francisco de Assis da Silva

Secretário Geral da IEAB