Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

O CONIC- Conselho Nacional de Igrejas Cristãs emitiu nota a respeito do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa que é celebrado nesta data no Brasil. Trata-se de uma oportunidade para as Igrejas e a sociedade brasileira refletiram em quanto ainda precisamos caminhar na superação do preconceito e da intolerância contra expressões religiosas. A Secretaria Especial de Direitos Humanos lidera hoje em Brasília um conjunto de eventos alusivos à data. Lideranças religiosas estarão discutindo estratégias de aprofundamento de uma consciência mais cidadã e mais respeitosa com relação aos diversos grupos religiosos que tem presença organizada no Brasil.

A nota do CONIC, assinada pelo Secretário Geral, Rev. Luiz Alberto Barbosa, esta reproduzida abaixo:

“Pois vá e faça a mesma coisa” Lc 10,37

Caros Irmãos e Irmãs, mais uma vez estamos celebrando o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, 21 de janeiro. Trata-se de uma iniciativa do Governo Federal, e esta data deve ser celebrada anualmente em todo o território nacional, fazendo parte do Calendário Cívico da União. Como Igrejas Cristãs somos também chamados a refletir internamente como andam as nossas ações em relação ao próximo, principalmente em relação àqueles que não professam as mesmas crenças que nós, seja dentro do âmbito do Cristianismo, no exercício do diálogo ecumênico, assim como na relação com os nossos irmãos e irmãos de outras religiões, no diálogo inter-religioso.

O exercício da caridade, da tolerância, do respeito ao diferente não é fácil, principalmente quando envolve elementos do sagrado. Muitas vezes a razão humana é ofuscada por uma névoa de intolerância fundamentada em princípios religiosos capazes de levar às maiores atrocidades contra o próximo. Como Cristãos somos chamados a estar sempre alertas, olhando sempre com o olhar misericordioso de Jesus, que na Parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37) nos ensina na prática a lição da tolerância e do amor fraterno.

A Virtude da Tolerância deve ser vista dentro do contexto da aceitação e compreensão das diferenças, sempre dentro de um ambiente de respeito e diálogo. Usar o nome de Deus para perseguir, humilhar, agredir ou mesmo matar o próximo é algo inconcebível, e com certeza condenado, por qualquer religião. Na palavra Tolerância encontra-se contido o sentido pleno de humanidade, igualdade de oportunidades e condições e livre pensar e crer. Voltaire, grande iluminista, já foi sábio ao afirmar em sua obra: “Tratado sobre a Tolerância” de que “Não é preciso uma grande arte, uma eloqüência menos rebuscada, para provar que os cristãos devem tolerar-se uns aos outros. Vou mais longe: afirmo que é preciso considerar todos os homens como nossos irmãos. O quê? O turco, meu irmão? O chinês? O judeu? O siamês? Sim, certamente; porventura não somos filhos do mesmo Pai, criaturas do mesmo Deus?” (Tratado, p. 125).

Tolerar, todavia, não significa compactuar com tudo, ou seja, com comportamentos que infrinjam a ordem jurídica, ética ou moral de uma sociedade. O conceito de liberdade religiosa, neste contexto, estará sempre cerceado pelos direitos e deveres individuais e coletivos impostos pelo ordenamento legal de um País, que deve proteger a liberdade religiosa, e ao mesmo tempo vigiar para que nenhum cidadão seja vitima de intolerância ou discriminação no exercício de suas crenças. Como perspicazmente coloca André Comte-Sponville, filósofo francês, nascido em 1952: “a simplicidade é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos, assim a tolerância é sabedoria e virtude para aqueles que – todos nós – não são nem uma coisa nem outra. Pequena virtude, mas necessária. Pequena sabedoria, mas acessível”.

Essa pequena sabedoria foi exercida com grandeza pelo Samaritano da parábola contada por Jesus. Judeus e Samaritanos não se toleravam, tinham rivalidades, tensões, divergências na prática e no pensar religioso. Todavia, é um samaritano que, ao ver um judeu caído à margem da estrada necessitando de ajuda, consegue passar por cima de todas as diferenças religiosas e culturais, e presta ajuda solidária, exercitando assim a grande virtude da tolerância, do respeito e do amor fraterno. O exemplo do Samaritano se torna um mandamento de Cristo para todos nós: “Pois vá e faça a mesma coisa” Lc 10,37

O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa serve para nos mostrar que ainda estamos muito distantes do cumprimento deste mandamento de Cristo. A próxima Campanha da Fraternidade Ecumênica, que se inicia no dia 17 de fevereiro, é mais um momento em que, como Igrejas, podemos dar o testemunho de que conseguimos trabalhar em conjunto, no exercício prático da tolerância fraterna, na busca de um mundo melhor e solidário para todos.

Rev. Luiz Alberto Barbosa

Secretário Geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC

Desde o Sínodo de 2003, a IEAB criou em nível provincial uma Comissão de Diálogo Inter-religioso como um claro compromisso de ajudar a construir novos parâmetros de respeito à diversidade religiosa e ao mesmo tempo como um canal de diálogo e busca de ações conjuntas.

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Rev. Cônego Francisco de Assis da Silva

Secretário Geral da IEAB