Jaci Correia Maraschin: sacerdote, poeta e teólogo. 

A IEAB amanheceu hoje mais empobrecida pelo passamento de um dos seus mais ilustres filhos.
Maraschin, ou Jaci – como alguns o chamavam – fez história nesta parte da Igreja de Deus. Desde a campanha gaúcha, onde nasceu na cidade de Bagé, Maraschin trilhou o caminho do mundo. Desde cedo revelou sua habilidade para a poesia e a música.

 
Foi um destacado líder da juventude em sua paróquia natal, a Matriz do Crucificado. Durante anos foi diretor responsável da revista Flâmula, um periódico mensal da juventude da IEAB, sendo um dos seus mais dedicados líderes. Em 1951 ingressou no Seminário e em 1953 foi ordenado diácono na Igreja da Ascensão, em Porto Alegre. Sua primeira comunidade como reverendo foi a de coadjutor na Paróquia da Redenção em São Gabriel onde realizou um belo trabalho de renovação espiritual e litúrgica. Após sua ordenação presbiteral, no ano seguinte, foi para os Estados Unidos para fazer pós-graduação no Seminário Geral de Nova York. A convivência com a Igreja dos Estados Unidos transformou Maraschin num dos mais ardentes defensores de uma espiritualidade comprometida com a reflexão profunda, com a relação entre fé e cultura e com a dimensão católica da espiritualidade anglicana.

Ao regressar ao Brasil, em 1956, recebeu a incumbência de coordenar a Educação Cristã. Desenvolveu um amplo trabalho de atualização da educação religiosa na Igreja, buscando construir um processo de formação que levasse em conta a diversidade e riquesa cultural brasileira. A ênfase numa espiritualidade não divorciada da realidade e na compreensão de que a Paróquia devia ser um amplo laboratório de uma fé comprometida. Paralelamente a esse trabalho, Marachin mantinha as funções de Secretário Executivo da Juventude e diretor da revista Flâmula.

 
Em 1959 tornou-se professor do Seminário Teológico em Porto Alegre. Em 1964 viajou a Estrasburgo para fazer o doutorado em Ciências da Religião, onde obteve a mais alta recomendação acadêmica – Magna Cum Laude – com sua tese acerca de Fraderick Deninson Maurice. Foi o primeiro episcopal brasileiro a receber tal distinção acadêmica na Europa. De volta ao Brasil, continuou sua docência no Seminário Teológico e passou a representar a Igreja do Brasil em fóruns nacionais e internacionais de âmbito denominacional e ecumênico. Foi um dos fundadores da ASTE – Associação de Seminários Teológicos Evangélicos, tornando-se mais tarde seu Secretário Executivo por muito anos.
 
Em 1976 foi eleito para compor a Comissão de Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas onde atuou ao lado de renomados teólogos do mundo inteiro. Foi escolhido pelo Arcebispo de Cantuária para compor a Comissão Internacional Anglicana de Teologia, criada em 1981 na qual participou da produção de vários documentos de orientação teológica para a Comunhão Anglicana. Foi escolhido para representar o Brasil no Conselho Consultivo Anglicano em 1990 e assessorou este mesmo Conselho na produção de diretrizes para as Provincias da Comunhão. Foi designado pelo Arcebispo de Cantuária para compor a Comissão Internacional Anglicano-Católico Romana na qual ajudou a construir o famoso documento Dom da Autoridade, assinado pelas duas Igrejas.
 
Toda a Igreja é testemunha de sua rica rica contribuição à liturgia e à música. Afeito à Arte e amante do clássico ao moderno, Maraschin tem sua marca em muitas da músicas cantadas hoje no dia a dia de nossas paróquias. E não somente na IEAB. Sua contribuição atravessou fronteiras denominacionais e são hoje um patrimônio ecumênico. Ultimamente, por designação do bispo Primaz, estava coordenando o processo de revisão do Hinário da IEAB e de sua Liturgia.

O legado que nosso irmão deixa é imensurável. Praticamente a liderança toda da IEAB hoje recebeu sua influência teológica. Seu compormisso com uma Igreja inclusiva e aberta á razão e à intuição influenciou gerações. No dizer de um dos bispos de nossa Igreja, Maraschin reuniu harmonicamente as marcas de sacerdote, poeta e teólogo. No dizer de uma de suas filhas, Ana Isabela, ele chega a ser um ícone, uma imagem que não sai da mente. Mas o que diria o próprio Maraschin sobre si mesmo? Um amante da liberdade. Segundo ele, "a vida só é vida enquanto dura a liberdade"!

Viva a liberdade Maraschin. E viva-a intensamente agora que estás na presença de Deus. Que andes nos rastros do sagrado, como tu mesmo dissestes:"Liberdade é andar nos rastros do sagrado sem se preocupar com intencionalidades ou explicações"

Para além de tudo isso e com muito amor, ele foi um esposo e um pai exemplar e deixa saudades a Ana Dulce, sua esposa e às filhas Ana Isabela e Rosa Maria. A elas, o nosso agradecimento por ter partilhado esse irmão com a Igreja, mesmo as vezes à custa de ausências familiares. Aliás, as mulheres anglicanas do Brasil sempre tiveram nele um ardoroso defensor da ordenação feminina e do protagonismo de todas as mulheres ainda nos tempos em que esse debate atraia posições apaixonadas.

 
A título de sugestão e em memória de nosso irmão, pedimos às Paróquias e Missões da IEAB que utilizem em seus ofícios no próximo domingo uma música das muitas que ele compôs para a nossa elevação espiritual.

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Rev. Cônego Francisco de Assis da Silva

Secretário Geral da IEAB