ACC 14: O futuro da Comunhão em foco

Continuamos acompanhando com interesse a reunião do ACC na Jamaica através dos informes que nos tem sido passados pelo Prof. Joanildo Burity. O grande tema dessa reunião é o futuro do proposto Pacto Anglicano. Embora não seja a única agenda o evento, por suas implicações na vida da Comunhão, o Pacto tem monopolizado a atenção da mídia internacional.

processional acc
 

A seguir, mais um relato de nosso delegado com relação à evolução das discussões em Kingston, Jamaica:

 
prof joanildo

Mesmo entre as províncias mais resistentes à idéia do pacto (como o Brasil por exemplo), há uma concordância quase consensual quanto ao conteúdo das seções 1 a 3 do novo documento de Ridley Cambridge. Acho que onde a discussão vai concentrar-se é fundamentalmente na seção 4, para a qual já existem várias propostas de emenda junto ao Comitê de Resoluções do ACC. É aí que o bicho vai pegar. Meu grupo de discernimento propôs duas alterações na resolução original – uma assegurando que somente as Igrejas que atualmente são membros do ACC receberão o documento do Pacto para "adoção e resposta" (por isto entenda-se que (i) a província votará pela aprovação ou não do documento, como está; (ii) no entanto, poderá propor mudanças/emendas ao mesmo já ao comunicar o resultado da votação; e, (iii) solicitando que as províncias dêem urgente consideração ao assunto, dentro de seus procedimentos estatutários e canônicos. Mas há outras propostas, inclusive uma que, a título pessoal, apoiarei para ir à discussão, que altera bastante a seção 4, no sentido de minimizar a interferência externa e a possibilidade de eventuais punições às províncias que não assinarem o pacto como está. Meu apoio é para que a proposta chegue a plenário. Embora concorde com ela em 80%, tenho reservas num ponto e dúvida em outro. Este apoio, entretanto, não será dado em nome da província (até porque esta só se posicionará no plenário, em voz (se necessário) e voto.

O arcebispo Rowan Williams apresentou hoje o relatório do Windsor Continuation Group (WCG), que é complementar ao do Pacto, pois o previa, desde o próprio Relatório de Windsor. O relatório submetido ao arcebispo faz recomendações sobre o Processo de Escuta (processo que ouviu partes teologicamente em conflito); as moratórias (de sagração de bispos homossexuais e bençãos de uniões de pessoas de mesmo sexo e as violações de fronteiras eclesiais); os Instrumentos de Comunhão; a relação da Inter-Anglican Commission for Unity, Faith and Order-IASCUFO [Comissão Executiva Inter-Anglicana de Unidade, Fé e Ordem] e os Instrumentos de Comunhão; o Pacto Anglicano; os Visitadores Pastorais e o Fórum Pastoral (apontado desde a reunião dos Primazes na Tanzania); e o Diálogo Mediado sobre Jurisdições Paralelas. A proposta do Arcebispo é de que o relatório seja aprovado pelo ACC, que em conjunto com o Joint Standing Committee (JSC) o Arcebispo implemente as recomendações no que couber; reitera as moratórias (consagração de bispos, autorização de ritos públicos; benção de uniões homossexuais; e intervenções em outras províncias); comissiona um estudo à IASCUFO sobre o papel e responsabilidades de cada Instrumento de Comunhão, sua razão de ser eclesiológica e suas relações para exame de cada um daqueles, com relatório a ser apresentado ao próximo ACC-15. O arcebispo concluiu falando sobre o "definit eclesial" da Comunhão, e posicionou-se claramente que lhe parece haver somente duas opções – agir em unidade como igreja ou tornarmo-nos uma rede dispersa de igrejas locais – defendendo a primeira como uma "forma mais pactuada necessária no momento", de uma "comunhão mais coesiva". Em outras palavras, o Arcebispo declarou explicitamente seu apoio à proposta do Pacto.

Enfim, pelas discussões que se tem tido aqui surgem algumas possibilidades. Uma delas como sugerido pelo representante da Escócia, é até mesmo assinar o pacto, se o contrário puser em risco o reconhecimento daquela província na "nova" Comunhão, ou de politicamente permitir que o texto "desça" até as Províncias, sem compromisso com o pacto. Lembrando que ainda há outra posição possível: adotar o pacto e propor mudanças nele. De qualquer forma, embora, mesmo na forma atual do texto, não haja nenhuma necessidade de alteração dos estatutos ou cânones provinciais, creio que somente o Sínodo deve tomar posição final sobre tão grave assunto. O que nos levaria a 2010. Mas também significará que os bispos não podem pressupor que o resultado será a reafirmação pura e simples de sua declaração de 2008.

Amanhã discutiremos conjuntamente mais uma vez o Pacto e o Relatório do Windsor Continuation Group, apresentado pelo Arcebispo.

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Rev. Cônego Francisco de Assis da Silva

Secretário Geral da IEAB