É Tempo de Advento, É Tempo de Natal

“Eu já escuto os teus sinais” – Alceu Valença

Porque em ti está a fonte da vida;
Na tua luz é que vemos a luz.
Continua a tua misericórdia aos que te conhecem,
E a tua justiça aos que têm o coração puro
– Salmo 36,9 e10.

A palavra Advento nos coloca em clima de expectativa: vem por aí um novo tempo, cuja marca principal é a alegria. A palavra indica o aproximar-se, a chegada… Quatro semanas de preparação para o Natal. Semanas para ouvirmos a voz dos profetas: Isaías; João Batista… Dos anjos que anunciam; a mulher pobre da insignificante Nazaré, que se coloca nos caminhos de serviço dos esquecidos e desprezados: Izabel e Zacarias da época. Exemplo que se faz convite para nós hoje. É tempo de aplainar estradas para a vinda do Messias.

É tempo de ouvir a voz do próprio Jesus, que anuncia que o Espírito de Deus o confirma no anúncio da proximidade do Reino de Deus e da necessidade de construir as condições para que o Reino aconteça.

O Advento nos convida a celebrar realidade e esperança; o que temos e o que queremos. Pelo Advento somos convidados a mergulhar na dinâmica da salvação que vem de Deus: Jesus, o sacramento maior do Pai assume condição de gente entre os esquecidos; faz-se criança na contramão da lógica do mundo, recebe acolhida entre os pobres, simbolicamente representados pelos pastores, que, acordados pelo brilho da estrela, reconhecem que é um novo tempo de Deus, um tempo de inclusão.

O Evangelho de Lucas situa grande parte da atividade de Jesus ao longo de um caminho que vai da Galiléia (Lc 9,51) até sua elevação ao céu em Betânia na periferia de Jerusalém (24,51-52). Será este caminho que percorreremos durante o ano C, do calendário eclesiástico. Ao refazer o caminho de Jesus através da Leitura do Evangelho de Lucas, caminharemos com Ele como o fizeram seus discípulos. Será um caminho de aprendizado. Um caminho que mostra na prática o que significa a apresentação de Jesus na Sinagoga de Nazaré e dos seguidores de Jesus na Igreja hoje:

“O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque ele me consagrou com a unção,
para anunciar a Boa Notícia aos pobres,
enviou-me para proclamar a libertação aos presos
e aos cegos a recuperação da vista:
para libertar os oprimidos,
e para proclamar um ano de graça do Senhor” – (Lc 4,18-18)

O Advento nos coloca em sintonia com Deus como Senhor do tempo: “Aquele que é, que era e que vem”(Ap 1, 4-8), revelando uma presença contínua. O caráter missionário do Advento manifesta-se na Igreja pelo anúncio do Reino, e a sua acolhida pelo coração de toda a humanidade até a manifestação gloriosa de Cristo.

O Advento é também espiritualidade que ressalta a alegria pela vida que se renova; pela fé cristã que não está alicerçada sobre incertezas: A esperança da Igreja é a esperança de Israel já realizada em Cristo, mas que só se consumará definitivamente na volta do Senhor. Por isso o brado da Igreja característico nesse tempo é: Vem Senhor Jesus!

O tempo do Advento é tempo de esperança porque Cristo é a nossa esperança (1Tm 1,1); esperança na renovação de todas as coisas, na libertação das nossas misérias, pecados, fraquezas, na vida eterna, esperança que nos forma na paciência diante das dificuldades e tribulações da vida, diante das perseguições.

O Advento também é tempo de conversão. A preparação dos caminhos para viver um novo tempo requer que se tenha atitudes corajosas para mudar, conforme é sugerido: “E João percorria toda a região do rio Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados, preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão aplainadas; as estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados. E todo homem verá a salvação de Deus” – (Lc 3,3-6).

Recordo as palavras do poeta: “de tudo ficam três coisas. A certeza de que estamos começando; a certeza de que é preciso continuar, e a certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar. Façamos da interrupção um caminho novo; da queda um passo de dança; do medo uma espada, do sonho uma ponte e da procura um encontro” – Fernando Pessoa.

Estamos vivendo momentos de (re)começos. Recomeço de uma nova legislatura, seja Estadual ou Nacional; novos Governos Estaduais, mesmo que alguns tenham sido reeleitos, e novo mandato presidencial. De fato, os sinais que escutamos não são muito diferente do tempo anterior, mas precisamos continuar e reafirmar a busca da garantia da cidadania.

Nesse tempo de inclusão, de solidariedade, de luz, o sonho se concretiza na alegria do Povo Krao-Kanela, que, desde 1926, vivia um verdadeiro êxodo marcado pelo sofrimento e injustiça. Após muita luta e esforço de várias pessoas que partilharam sua energia e empenho, vimos, no último dia 08 de dezembro, publicado no Diário Oficial da União, a devolução das terras aos Krao-Kanela, que celebram nesse ano o Advento da inclusão.

Que o tempo do Natal seja um momento de (re)aproximação de Deus em nosso caminhar com o Cristo, menino que traz Esperança, coragem e amor. Assim desejo que a Esperança nos inspire para além do otimismo; a Coragem nos sustente apesar do medo e o Amor nos una com nossas diferenças. E cantemos juntos um cântico novo (Salmo 96,1-2).

Que a receita predominante nessa nossa festa seja a de: tomar um grupo de irmãos ligados pela mesma fé, unidos numa única esperança. Juntar Cristo a eles. Deixar fermentar até nascerem o homem e a mulher novos. Servir evagelicalmente a quem tem fome e sede de justiça.

Deus, que é para nós como Pai e Mãe, por sua misericórdia nos faça membros do seu Reino; Filho, vindo a nós em poder, revele entre nós a promessa de sua glória; Deus o Espírito, faça-nos firmes na fé, alegres na esperança e constantes no amor.

Todas as bênçãos para você e sua família nesse Tempo de Luz.

Do Vosso Primaz,

++Maurício

1. Rev. Lauri José Wollmann, contribuiu com subsídios bíblicos.

2. Receita de Natal, Frei Betto, publicado na Folha de São Paulo, Dezembro de 2006.

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Revmo. Maurício Andrade

Bispo Primaz da IEAB