HIV/AIDS: Desafio às Igrejas Serem Transformadoras

A coletiva de imprensa desta manhã tinha o tema “As Igrejas e o HIV/AIDS”, que ofereceu emocionantes e chocantes testemunhos de pessoas, dentro das igrejas, que estão vivendo e trabalhando com essa questão.

Os convidados para a coletiva foram a Dra. Sue Parry, médica, coordenadora regional da Iniciativa Ecumênica para HIV/AIDS na África (EHAIA); Srta. Gracia Violeta Ross Quiroga, membro da Comunidade Internacional das Mulheres que vivem com HIV/AIDS; Rev. Côn. Gideon Byamugisha, co-fundador da Rede Africana de Lideres Religiosos que vivem com ou pessoalmente afetadas pelo HIV/AIDS (ANERELA); Rev. Jape Heath, co-fundador e secretário-geral da ANERELA e a Sra Renu Chahil-Graf, coordenadora para o Brasil do Programa de AIDS/HIV das Nações Unidas UNAIDS).

O Rev. Jape Heath, anglicano, explicou que a ANERELA, agência ecumênica, foi criada para tratar dos estigmas de se ter HIV/AIDS. O estigma da auto-estima, que precisa ser resgatada, pois essas pessoas sentem-se envergonhadas; o estigma da sociedade, que os marginaliza; e o estigma baseado na fé, que, muitas vezes, as classifica como pecadoras, fruto de um moralismo opressor. “Encorajar as Igrejas a implementar políticas de HIV/AIDS” é um dos objetivos da ANERELA nesta Assembléia.

O Côn. Gideon, que também é anglicano e co-fundou a ANERELA, é HIV positivo há 15 anos, e desde então aprendeu a conviver e aceitar essa realidade. Tenta passar para as pessoas que elas podem casar, ter filhos (seguindo o tratamento preventivo durante a gravidez) e que, hoje, para quem tem acesso ao amparo médico, ter HIV/AIDS não é uma sentença de morte. “As pessoas podem viver uma vida saudável por muito tempo”, disse Gideon. Quanto ao apoio da Igreja, falou: “As igrejas, inicialmente eram contra o trabalho. Houve um tempo de apatia e indiferença. E, hoje, vivemos um tempo em que as igrejas (na África) estão engajadas nessa luta, de acabar com o estigma. Mas tem líderes religiosos que ainda estão falhando”. Também afirmou que a Igreja Católica de sua localidade é uma grande apoiadora do trabalho da ANERELA.

Gracia Quiroga, membro da Igreja Evangélica da Bolívia, lamentou o fato de não haver um engajamento concreto das igrejas bolivianas na questão. O que existe são iniciativas particulares, como a dela, uma HIV positiva, fruto de violência sexual por dois homens, que procuram sinais de esperança e procuram dar testemunho, por meio de ações concretas, transformando um quadro de dor em um ambiente de Graça, de transformação, em meio às dificuldades. “A questão do HIV/AIDS nós dá oportunidade de darmos testemunho e de se fazer algo pelas pessoas que estão precisando de nosso amparo”, disse Quiroga. “Precisamos de um maior nível de engajamento e compromisso das Igrejas”.

A coordenadora para o Brasil do UNAIDS, Sra. Renu Chahil-Graf falou que as Nações Unidas estão realizando um programa em conjunto com diversas organizações internacionais, sendo que 3 delas estão na Assembléia do CMI, e vários desses trabalhos têm sido muito eficazes. “Combater a epidemia de HIV/AIDS que ameaça o mundo é uma forma de combater a pobreza”, visto que os ambientes mais pobres propiciam a disseminação dela, por diversos fatores sócio-políticos e econômicos.

A Dra. Sue Parry disse que a entidade a que ela pertence foi criada em 2002, respondendo ao chamado das igrejas africanas, que estavam preocupadas (e ainda estão) com a epidemia de HIV/AIDS que assolava o continente africano. Porém, apesar dos esforços, nota-se que ainda tem muito a ser feito. Basta ver que os números crescem a cada ano, inclusive nos países ricos. Comentou o fato de que, como os paises ricos têm acesso fácil às novas drogas para o tratamento do HIV/AIDS, que prolongam e dão qualidade de vida aos portadores, eles têm uma sensação de controle da situação e de segurança. E o que mais a entristece é que, muitas vezes, os jovens viajam pelo mundo, não se protegem e não tomam os devidos cuidados, “e retornam não somente com muitas fotos dos seus roteiros turísticos…”.

“O meio de transmissão do HIV/AIDS não se dá única e exclusivamente pela relação sexual, não está relacionado somente ao sexo”, disse o Rev. Jape, respondendo a uma questão sobre a proibição do uso de camisinha pela Igreja Católica. A prevenção se dá ao se compartilhar o uso de seringas e agulhas, em transfusões ou para consumir drogas; da gravidez controlada quando um dos pais é HIV positivo, ou tem AIDS; de se dar educação preventiva, enfim, ignorar esses outros pontos também “é uma forma de estigmatização”.

Todos os entrevistados fizeram um apelo para que as igrejas se engajassem nessa luta, promovendo programas, realizando ações concretas para que essa epidemia seja combatida e que, principalmente, se combata a estigmatização e marginalização dos portadores de HIV/AIDS. Esse é mais um desafio de transformação para as nossas Igrejas.

Alguns dados estatísticos que merecem atenção:

* 42 milhões de pessoas, no mundo, são HIV positivas;

* 29.4 milhões vivem na África, 6 milhões no Sul e Sudeste da Ásia, 1.2 milhões no leste da Ásia e Pacífico, 1.5 milhões na América Latina, 1.2 milhões no Leste Europeu e Ásia Central.

* 14 milhões de crianças ficaram órfãs desde o início da epidemia da AIDS, em 2002.

* Segundo a estatística oficial do governo brasileiro, 371 mil casos de AIDS/HIV foram notificados. 80% concentram-se nas regiões Sul e Sudeste do pais.

Fonte: UNAIDS e Site oficial do Programa Nacional de DST/AIDS, do governo brasileiro.

* Esclarecimento: Existe uma diferença em ser HIV positivo e ser portador da AIDS. Ser HIV positivo significa que a pessoa possui o vírus, porém, não manifestou os sinais da doença. A pessoa que porta o vírus da AIDS já possui a manifestação dos sinais da doença e está sujeito às doenças oportunistas, que se aproveitam da imuno-deficiência. Por isso, escrevemos HIV/AIDS.

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Claudio Oliveira

Departamento de Comunicação