Simulacros e Simulação em Recife

Estamos vivendo em nosso país o tempo dos simulacros e da simulação. O resultado da simulação são os simulacros. Simulação significa fingir ser o que não se é e fingir ter o que não se tem. A população brasileira está assistindo pela TV o espetáculo dos simulacros. Os ladrões e bandidos que ocupam cargos, que nós lhes confiamos pelo voto, afirmam contra todas as evidências que são honestos e bons e que nada sabem a respeito das propinas indecentes, da compra de apoio e da lavagem de dinheiro. Dizem sem pestanejar que nada viram, nada ouviram e nada sabem. O partido que se elegeu graças às promessas de mudanças sociais e morais, acabou enlameado como todos nós estamos vendo. A simulação, no entanto, tem seus poderes, e ainda há muita gente que não se convence da onda de corrupção que nos assola e, talvez por causa de seus compromissos ideológicos, prefere acreditar na teoria da conspiração da direita. Tudo não passaria de armação e de vingança.

Correndo paralelamente a esse espetáculo de simulação na vida nacional desenrolam-se tragicomicamente as ações comandadas pelo sr. Robinson Cavalcanti, ex-bispo anglicano da antiga diocese de Recife, acompanhado de seus ingênuos colaboradores, também ex-clérigos anglicanos. Littré observou certa vez, no campo patológico, que “aquele que finge uma doença pode simplesmente meter-se na cama e fazer crer que está doente”. Robinson foi deposto das ordens sacras pelas autoridades sacramentais que lhe haviam conferido essas mesmas ordens. Seus colaboradores, porque resolveram acreditar na “doença” de seu ex-bispo, recusando-se a reconhecer a instituição que lhes dera o poder do ministério, também foram suspensos de suas funções na Província Anglicana do Brasil. Robinson Cavalcanti faz de conta que continua sendo o legítimo bispo de Recife e por causa disso, por causa dessa simulação, finge não saber o que sabe, isto é que está deposto. Foi baseado nessa ”crença” que tentou impedir a realização do concílio da Diocese, “que era dele”, ocultando da justiça civil que na verdade ele não era mais a autoridade diocesana, coisa que bem poderia ser configurada como crime de falsidade ideológica. A justiça anulou a ação e o XXIX concílio foi devidamente realizado e o bispo designado pelo Primaz da Província realizou os atos episcopais com proteção legal.

A simulação não termina aí. O bispo deposto faz de conta que as razões que levaram o Primaz e a Câmara dos Bispos a anular suas ordens são outras que ele inventa. Trata-se neste caso de processo de dissimulação. Finge não ter o que tem. Isto é, finge não ter cometido os delitos que claramente estão expostos no decreto de seu afastamento da liderança de sua antiga igreja. E proclama ao mundo que as razões foram outras, embora essas outras razões aduzidas por ele jamais tenham constado do processo em pauta. Tomado por paranóica homofobia, vê propaganda de homoerotismo em todos os atos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, mesmo sabendo que jamais encontrará nenhuma decisão oficial da Província Brasileira em favor de práticas homossexuais entre os membros do clero. Por detrás da “doença” que o aflige está a rejeição explícita das Províncias dos Estados Unidos e do Canadá porque, essas sim, aceitaram de certa forma o direito dos homossexuais, no caso dos Estados Unidos, reconhecendo a ordenação de um bispo gay e, do Canadá, da bênção de uniões de pessoas do mesmo sexo. A atitude da Igreja Brasileira seguiu a tradição anglicana do reconhecimento do direito de cada Província agir segundo seus cânones sem que tal ação afete a vida e as decisões de outras províncias. O bispo deposto queria que os anglicanos brasileiros fizessem como os africanos, isto é, que condenassem os atos dessas duas Províncias irmãs e quebrassem a comunhão com elas. Fomos acusados, por isso, de liberais e hereges.

No meio desses simulacros e simulações, com suas decorrentes dissimulações, começam a surgir novas causas de divisão entre os anglicanos com a aceitação, na Inglaterra, de parcerias de pessoas do mesmo sexo, mesmo entre membros do clero daquela Província.

Não sei se por causa disso, mas Peter Akinola, arcebispo da Província da Nigéria, acaba de modificar a constituição (com a aprovação de seu sínodo ou órgão equivalente) de sua igreja com pelo menos duas mudanças significativas: a eliminação da menção ao Arcebispo de Cantuária como símbolo de unidade dos anglicanos e a afirmação do direito dessa igreja de estabelecer relacionamento apenas com Províncias ou grupos anglicanos que se mantenham fiéis à ortodoxia bíblica (leia-se interpretação fundamentalista das escrituras), aos 39 Artigos de Religião e ao Livro de Oração Comum de 1662. O mesmo Akinola está convocando uma reunião de anglicanos do Sul-Sul e, por causa de suas posições autoritárias, avisou que não deseja a presença de nosso Primaz nesse encontro, por causa de suas idéias liberais e por ter deposto o bispo que se afina com suas posições draconianas. Akinola também incorre na moda da simulação de nossa época. Fará de conta que seus asseclas, que se reunirão no Egito, representam o Sul-Sul global, como se o Brasil estivesse agora no hemisfério norte. Os anglicanos desse encontro fingirão ser o que não são: o sul global.

Já celebrei cinqüenta anos de ordenação sacerdotal na Igreja de Deus, segundo os ritos anglicanos. Sou clérigo aposentado da Diocese Anglicana de São Paulo e sempre achei que o anglicanismo, na forma como foi estabelecido pela primeira conferência de Lambeth, era a alternativa mais sadia existente ao exercício do evangelho e do amor de Deus expresso no evangelho e na ação do Espírito Santo. Fui duas vezes assessor teológico das últimas conferências de Lambeth, membro do Conselho Consultivo Anglicano, membro da Comissão Anglicana Internacional de Teologia e Doutrina, e, por fim, membro da Comissão Internacional de Diálogo com a Igreja Católica Romana. Sempre mantive diálogo com os conservadores, embora me mantendo fiel à tradição católica visível e atuante em diversos setores da Comunhão Anglicana. Aprendi a dialogar com os diferentes de mim. Por causa disso trabalhei no Conselho Mundial de Igrejas por mais de vinte anos na Comissão de Fé e Ordem e ajudei a produzir inúmeros documentos ecumênicos. Nunca tive medo de comungar com os evangélicos, com os adventistas, com os pentecostais, com os presbiterianos e, entre outros, com os metodistas, com os quais trabalho há 36 anos na Universidade Metodista de São Paulo. Considero-os todos meus irmãos.

Os conservadores acusam os liberais de estarem se vendendo para a pós-modernidade. Não sei bem se sabem o que estão dizendo. A pós-modernidade não é uma agência nem um centro de poder. É um espírito, uma condição (como diz Lyotard), uma tendência (como eu prefiro dizer). É a tendência à fragmentação que contraria o pensamento único, o autoritarismo e o dogmatismo. Está mais para os lados da atividade do Espírito Santo que sopra onde quer e como quer. Para se classificar quem é ortodoxo é preciso que haja alguém infalível que faça a catalogação. Será que o arcebispo da Nigéria vai pedir ajuda à Cúria Romana, que entende melhor do que ninguém dessas coisas? Estou convencido de que os que querem certezas absolutas não precisam perder tempo com todas essas dissimulações. Já existe no cristianismo um centro de referência infalível, ortodoxo e imutável: a Igreja Católica Apostólica Romana. Os que trabalham nessa organização eclesiástica fazem esse serviço com perfeição. E se a questão em causa é numérica, é o grupo cristão maior do mundo. De longe. Além disso, no meu convívio com bispos, padres e freiras dessa grande igreja, percebo que, apesar de tudo, se pode respirar aí certa liberdade que os fundamentalistas e conservadores evangélicos desconhecem.

Para aumentar a galeria de simulacros temos agora mais uma simulação. O primaz do Cone Sul (sediado na Argentina) acaba de acolher o ex-bispo, como se o ato de ex-comunhão de uma autoridade eclesiástica anglicana nada valesse. Recebeu também, de uma só vez, todo o clero deposto da Diocese de Recife, sem nem ao menos procurar avaliar os acontecimentos que levaram a essa deposição. Será que por um golpe de magia, a ex-diocese anglicana de Recife vai se tornar a mais nova diocese da Província Anglicana do Cone Sul? Buenos Aires, afinal, passaria a ser, como alguns americanos pensam, a capital do Brasil. Já há cerca de quarenta grupos dissidentes da Sé de Cantuária que continuam a se autodenominar “anglicanos”. Akinola já disse que sua Província só manterá comunhão com os que se alinharem a sua crença, que ele pensa ser “a verdadeira crença anglicana”. Terá se revestido de infalibilidade doutrinária? Começa a despontar uma nova (?) comunhão anglicana, desta vez sem o arcebispo de Cantuária. Podemos, certamente, indagar, se as Províncias fiéis a essa tradição, continuarão formando a Comunhão Anglicana, segundo os princípios que nortearam a sua formação na primeira Conferência de Lambeth?

Esse estado desarvorado de coisas mostra claramente que o tantas vezes manifesto desejo de inclusividade (comprehensiveness) é muito difícil de ser vivido no dia-a-dia da igreja e do mundo. É mais fácil construir-se muros de separação do que alianças que celebrem a aceitação dos inaceitáveis. A glória da Comunhão Anglicana foi, por muito tempo, essa possibilidade do diálogo e da prática da hospitalidade.

Por Jaci Maraschin, presbítero da Diocese Anglicana de São Paulo e professor titular da Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. É doutor em Ciências da Religião pela Universidade de Strasbourg, França, com pós-doutoramento no Union Theological Seminary e na Columbia University de Nova York, Estados Unidos.

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Christina Takatsu Winnischofer

Secretária Geral da IEAB