Carta de Esclarecimento à IEAB

Desde a nomeação e início do trabalho, em 16 de março de 2004, da Comissão Especial da IEAB, nomeada pelo Bispo Primaz, a pedido da Câmara dos Bispos, tem-se recebido manifestações, através dos diversos meios de comunicação, que criticam a composição, o trabalho e a legitimidade da referida Comissão.

Porém, após o II Encontro da Comissão Especial, nos dias 15 a 16 de junho de 2004, essas manifestações ultrapassaram os limites da liberdade de expressão e do respeito mútuo, através de carta anônima que fez ataque duro e vil contra os membros da referida Comissão.

Diante disso, o Bispo Primaz vem a público dar um esclarecimento ao clero e ao povo da IEAB sobre a Comissão Especial.

“Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos, pelo contrário, rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam…nem alterando a Palavra de Deus…porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor…Temos esse tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós “- II Cor.4,1-7.

Ao clero e povo da IEAB, saúde e muita Paz!

Primeiramente, queremos afirmar que a Comissão Especial nomeada por mim, Dom Orlando Santos de Oliveira, tem em si a legitimidade concedida pela IEAB, que me elegeu seu Bispo Primaz, em comunhão e colegialidade com meus colegas bispos, como vínculo da nossa unidade, para ser líder espiritual e pastoral da IEAB, no XXIX Sínodo Geral, em maio de 2003.

Também é importante destacar que essa Comissão não foi nomeada pelo Bispo Primaz, por mera sugestão da Câmara dos Bispos, para tratar de assuntos referentes à Homossexualidade (e não homossexualismo), mas sim na mesma direção da Comissão nomeada pelo Arcebispo de Cantuária, e a esse mandato temos nos debruçado, com ênfase em três eixos: eclesiologia, colegialidade e implicações canônicas.

Importa-nos reafirmar que a Comissão não tem nenhum mandato de decisão, mas tão somente de assessoria e recomendação ao Bispo Primaz e à Câmara dos Bispos. As decisões e encaminhamentos são de responsabilidade do Bispo Primaz, que o faz legitimado, por ser entre nós o Pastor da Igreja, instrumento e símbolo de nossa unidade na IEAB, como já foi dito acima.

Compõem a Comissão, como leigos, Joanildo Burity (Diocese Anglicana do Recife, Paróquia do Espírito Santo); Érica Furukawa (Diocese Anglicana de São Paulo, Paróquia de São João); clérigos, Rev. Francisco de Assis da Silva (Diocese Meridional, Pároco da Paróquia de Todos os Santos); Rev. Carlos Eduardo Brandão Calvani (Diocese Anglicana de Curitiba, Coordenador do Centro de Estudos Anglicanos); bispos, Dom Jubal Pereira Neves (Diocese Sul Ocidental,1993); Dom Maurício Andrade (Diocese Anglicana de Brasília, 2003). Essa é a representação, com responsabilidade e legitimidade pessoal de cada um, para serem membros da Comissão. Todo eles, em cada uma de suas áreas de trabalho, dedicam suas vidas e servem à Igreja (Lucas 9,18-24).

A Comissão não foi nomeada para definir ou redefinir qual é o verdadeiro Evangelho, pois esse nós já o recebemos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas é importante lembrar que “para a liberdade foi que Cristo nos libertou” (Gálatas 5,1), e relembrar a leitura do Quarto Domingo depois de Pentecostes, no eixo do seguimento do Cristo: “Pois o Filho do Homem não veio para destruir, mas para salvar” (Lucas 9,56). Esta narrativa nos reafirma quais os frutos que devemos produzir como caminhantes: “Amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio”(Gálatas 5,22-23).

Nesse espírito, não nos cabe responder com qualquer arrogância, nem nos cabe destruir e tampouco atacar a moral do outro, como se esse fosse nosso inimigo. Não nos cabe ofender esse ou aquele, imputando qualificativos como “falta de ética, agressividade e mentira”. De fato, essa não é uma postura cristã, nem é parte do Evangelho.

E assim, relembramos abaixo as palavras que Dom Jubal Pereira Neves, presidente da Comissão, enviou no dia 21 de junho à mesma Comissão Especial, quando da ofensiva e maldosa carta anônima que lamentavelmente circulou, por certo com o apoio de outros que se dizem defensores da verdade e do “verdadeiro evangelho”:

“Por falar em retribuição, lembro a correspondência enviada pelo Arcebispo Ndungane à Comissão de Lambeth em 14 de junho p.p. Participei com Dom Winston do “Design Group” para planejar Lambeth 98. Trata-se de um teólogo brilhante e um pastor experimentado, forjado nos embates da luta contra a segregação, buscando a cura e a paz na sociedade sul-africana. Em sua carta, ele fala da importância em respondermos sempre com a “justiça restaurativa”, em lugar da “justiça retribuitiva”, fazendo dela o primeiro degrau de algo melhor. “Restaurativo” como um responso que enfatize “a cura das feridas de todas as partes envolvidas”. Diz ele: ‘A última palavra de Deus para nós não será jamais discórdia e separação! Onde fomos injuriados, nossa resposta deve ser curadora, reparadora, restauradora. E onde há divergências, devemos juntos aprender a como manejar essas divergências. Isso é que será uma boa-nova e uma ajuda de vida para um mundo tão quebrado pela arrogância, individualismo e vaidades” (Trecho da Carta de Dom Jubal Neves, em 21 de junho de 2004).

É sempre perigoso, difícil, e, sobretudo, complicado lidar com rótulos que se colocam sobre os outros. Há alguns anos atrás, no contexto do Protestantismo Brasileiro, mais precisamente na década de 80, algumas pessoas eram proibidas de circular em determinados meios eclesiásticos por serem consideradas e rotuladas de “liberais” e “permissivas”, porque defendiam temas como poligamia, concubinato e outras práticas não aceitas pela Igreja no contexto brasileiro. Mas, em outro contexto e no momento atual, algumas dessas pessoas se dizem defender o “verdadeiro evangelho” e serem carismáticas. É por isso que rotular, “dizendo que vivemos hoje numa hegemonia liberal na IEAB” é bastante ofensivo e simplista.

Quando a Comissão Especial do Bispo Primaz fez a recomendação de transformar em carta aberta a correspondência enviada no dia 17 de março ao bispo diocesano da DAR, – exclusivamente com cópia ao demais bispos, – aceitamos o que outros membros da Câmara já haviam me sugerido há mais tempo, mas que por razões pastorais e de preservação das pessoas eu ainda não havia feito. Mas os fatos seguintes me condicionaram a fazê-lo.

Agora, a Comissão continuará o seu trabalho e seguirá o mandato que lhe foi confiado pelo Bispo Primaz, subsidiando, apoiando e auxiliando na tarefa de manter a unidade Provincial, e quanto a isso todos os seus membros estão tranqüilos e conscientes de tal responsabilidade.

Vivemos um momento de grande incerteza e turbulência em nossa Comunhão Anglicana. Não existem soluções rápidas e simplistas para os temas que nos dividem e drenam a nossa atenção e o nosso esforço. Infelizmente, reconhecendo a nossa diversidade, este tipo de disputas e controvérsias, na forma em que se têm colocado, tem nos afastado da tarefa maior e principal de partilhar as Boas Novas do Evangelho, cujo os frutos são o amor, a paz, a concórdia, a fraternidade, a verdade, a justiça e a comunhão. Nas minhas devoções diárias, deparei-me com uma afirmação de Inácio de Antioquia, a caminho do martírio, que nos faz refletir: “Amai a união! Fugi das discórdias! Tornai-vos imitadores de Jesus Cristo, como Ele o é do Pai”.

Com nossa Saudação e Bênção, vosso irmão e Primaz,

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Revmo. Orlando Santos de Oliveira

Bispo Primaz da IEAB