Mensagem Pastoral do Primaz da IEAB 


“Pois era Deus que reconciliava com Ele mesmo o mundo por meio de Cristo, não levando em conta os pecados dos homens e colocando em nós a palavra da reconciliação”.

II Coríntios 5:19

Tudo na vida da Igreja depende deste dom último. É a boa nova da graça, a qual a Igreja é chamada a testemunhar.
Com tristeza e preocupação estamos testemunhando vários sinais desagregadores na vida da IEAB, que cada vez mais nos distanciam do compromisso evangélico com a unidade e comunhão na diversidade e inclusividade: a reabertura de velhas feridas de antagonismo geográficos, doutrinais e teológicos que supúnhamos já cicatrizados; a ameaça velada e explícita de cisma; a inflexibilidade nas posições e no tratamento discriminador para com parte do clero e do povo da Igreja; acusações pessoais que descambam para ofensas malévolas e cruéis; a arrogância espiritual vindicando para si a “pureza evangélica” autêntica; a reivindicação da posse da herança da fé apostólica e da visão missionária dos primeiros tempos de nossa história; o julgamento sumário de pessoas e situações discordantes via manifestos, cartas, resoluções, emails, mensagens, o erguimento de “trincheiras”de preparação para uma “guerra santa”; o rompimento com a inclusividade; a falta de consideração e respeito mútuo; a decretação da “morte” da Igreja; o espírito sectário de cada um por si e Deus por todos; a quase instauração de tribunais inquisitórios; simplificações e reducionismos bíblicos, doutrinais e pastorais. E tudo isto feito em nome da preservação da “pureza” e da “fidelidade” da Igreja e da Comunhão Anglicana. Talvez fosse tempo de meditarmos sobre quais são os frutos do Espírito Santo de Deus.

Tudo isto nos entristece o coração e ao mesmo tempo nos faz, claramente, não nos conformarmos ou aceitarmos com passividade este quadro lamentável da hora que estamos vivendo. As Escrituras são a fonte do Evangelho da reconciliação, e a Igreja vive à luz e na dependência deste testemunho. Em todas as suas palavras e ações a Igreja é chamada a dar um duplo testemunho de si mesma; falar a palavra de vida ao mundo, testemunhando a fé pela qual ela vive e, ao mesmo tempo cada parte da Igreja é chamada a testemunhar a sua fidelidade ao evangelho para os outros cristãos.

A história cristã revela a pluralidade e a diversidade, embora o evangelho seja um só. As divergências de interpretação suscitaram tradições diferentes, mesmo porque usamos palavras humanas e com estas respondemos às várias situações humanas específicas. Este testemunho a respeito da fé reflete os diferentes contextos em que a Igreja atua e proclama. Sem esqueceremos que por causa do pecado humano, da ignorância e da fragilidade, sempre haverá omissões, erros e distorções no testemunho.
Temos lembrado de São Paulo, que com sua autoridade apostólica trabalhava com afinco, sofrendo uma dor profunda, diante da iminente ameaça de colapso da comunhão dentro da Igreja de Corinto. Na sua luta pela unidade e comunhão, cada vez mais via o seu ministério ser alicerçado na morte e ressurreição de Jesus Cristo, que mostrou o poder que brota da fraqueza.

Convocamos a toda a IEAB a perceber cada vez mais que comunhão provincial a que somos chamados envolve humildade, seriedade, honestidade, paciência, respeito, gentileza, o falar a verdade com amor, o afastamento de todo o rancor, raiva e insulto, mas que haja sim, bondade e compreensão uns com os outros, perdoando-nos mutuamente (Efésios 4), obedientes ao apelo do Arcebispo de Cantuária, para que em nossa continuidade de diálogo haja discernimento e crítica séria, mas acima de tudo encorajamento na fé para a construção do Corpo de Cristo em amor, que deve ser a base. Num momento de crise aguda como este é que somos levados a examinar com profundidade a vida e o sentido de nossa comunhão.

Como Anglicanos, sabemos que a maneira como celebramos e oramos molda a nossa identidade. O nosso Livro de Oração mais do que um padrão do culto, estabelece um padrão doutrinal embasado nas Santas Escrituras, nos Credos Católicos, nos Sacramentos e no Ministério dos Bispos, Presbíteros e Diáconos. Uma Igreja que se descreve nestes termos não necessita de definições ou resoluções canônicas de seu “Ethos”, mais do o que necessário. A nossa comunhão provincial permite atitudes diferentes de compreensão da fé e das formas de apresentação do Evangelho. Isto não elimina as divergências entre os membros da família da Igreja a respeito do que noz diz as Santas Escrituras – mas estamos longe de afirmar que não damos importância a respeito da primazia da Bíblia. Podemos divergir quanto à freqüência da celebração dos Sacramentos – mas não podemos descartar os Sacramentos. Nós, anglicanos, podemos divergir sobre a ordenação feminina, mas não negamos a necessidade de clérigos e bispos se quisermos permanecer anglicanos. Os Credos podem ser apenas um esboço da fé, mas não podemos rejeitá-los e permanecermos parte da Igreja Católica de Cristo. E a resposta às questões que desafiam a Igreja não são de responsabilidade de um indivíduo, de uma só diocese ou de uma Província isoladamente. Quando falamos de Comunhão, falamos de interdependência.

Os primazes reunidos em Lambeth, em outubro passado, reafirmaram unânimes o seu desejo de permanecer em Comunhão. Mesmo sabendo que teremos pela frente um caminho duro, longo e penoso e a necessidade de muita paciência e tolerância. A credibilidade de nosso testemunho e de nossa Igreja sairá diminuída se não formos capazes de manter os nossos laços de afeição e de paz. Que a nossa energia e trabalho sejam dirigidos para tantos desafios proféticos e missionários que estão a espera de nossa atuação.

A caminhada não será fácil, mas conclamo a toda a IEAB a orar e trabalhar para que se realize a vontade de nosso Deus – a nossa unidade e comunhão. Que na sabedoria e a Vontade de Deus esteja o nosso refúgio.

Do Vosso Primaz,

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Revmo. Orlando Santos de Oliveira

Bispo Primaz da IEAB