Declaração do Arcebispo de Cantuária na Última Coletiva de Imprensa do Encontro dos Primazes 

No dia 16 de outubro de 2003, após o encerramento do Encontro dos Primazes, o Arcebispo de Cantuária, Dr. Rowan Williams, juntamente com os Arcebispos da Irlanda, Robin Eames; dos Estados Unidos, Frank Griswold e das Índias Ocidentais, Drextel Gomez, participaram da última coletiva de imprensa. A seguir, a declaração que o Arcebispo de Cantuária fez, antes dos arcebispos responderem às perguntas dos repórteres.

Boa noite a todos. Muito obrigado por terem se juntado a nós. Eu espero que vocês, pelo menos, já tenham tido a chance de ler a declaração que foi produzida pelo nosso Encontro, que tem, de fato, a unânime concordância do Encontro dos Primazes. Eu também gostaria de falar algumas palavras, antes de nós respondermos às suas perguntas.

Esses dois dias foram extremamente importantes para a vida da Comunhão Anglicana, e, certamente, não foram fáceis. Eles não foram sem dor. Mas eles foram honestos e abertos, e eu espero que, como resultado, nós tenhamos crescido com algum conhecimento compartilhado. E eu gostaria de aproveitar essa oportunidade para agradecer aos meus colegas na Comunhão, por toda a sua dedicação, energia e firmeza no serviço cristão que eles, generosamente, mostraram nesses dois últimos dias.

Esse entendimento a que chegamos foi fruto de árdua vitória, e não poderia ter sido de outra maneira, dado os grandes desafios que nós enfrentamos nesses dois dias e as mais variadas posições que nós trouxemos para eles. Isso tornou o nosso trabalho mais significante. Nós realmente encontramos sabedoria para mantermos o diálogo e para trabalharmos juntos. Rapidamente, tivemos um fortalecimento da nossa unidade, ao contrário do que a maioria das pessoas previu e divulgou durante esse encontro. E o que importa para a maioria de todos nós, e que eu acho importante transmitir, é que qualquer palavra que se refira a vencedores e perdedores é irrelevante.

Agora, ficou muito claro que as nossas discussões sobre essas questões em torno da sexualidade humana vão continuar sendo difíceis e distintas para a Comunhão Anglicana, assim como para muitos cristãos. Essas questões vão continuar causando dor e raiva, desentendimentos e ressentimentos para toda parte. Mas preciso explicar que o Encontro dos Primazes não tem jurisdição legal, não é uma corte suprema da Comunhão. E pode estar sendo bastante surpreendente o fato de nos terem dado essa possibilidade, no encontro, para fazer com que os problemas fossem resolvidos de uma vez. Na realidade, nós não a temos (a possibilidade). Desafiados, nós tivemos um árduo trabalho tentando encontrar uma maneira de lidar com questões polêmicas que podem nos dividir, como uma Comunhão. Então, esses dois dias não foram, primeiramente, um seminário sobre sexualidade, ou uma tentativa de rever discussões e decisões já tomadas; mas muito mais do que isso, foi uma tentativa de perceber o que isso significa na Comunhão, e permanecer com o nosso compromisso compartilhado.

Uma palavra sobre a Comunhão: pessoas têm falado sobre estar ou não em comunhão com a nossa Igreja. O fato é, e veio claramente em nossas discussões, que Comunhão significa muitas coisas, e significa muito mais do que um simples conjunto de estruturas, um padrão regular de encontro entre primazes ou qualquer outro líder oficial. Comunhão significa o grupo da Mothers’ Union de Lancashire visitando Burundi; significa os jovens trabalhadores das Índias Ocidentais trabalhando nos Estados Unidos por cinco anos, e outras coisas semelhantes a essas. Significa a existência de companheirismo estreito entre as províncias como, por um tempo foi, o da Austrália e da Papua-Nova Guiné, quando a vida e os recursos das diferentes partes da Comunhão são partilhados. Mesmo assim, os níveis que nós temos dentro e fora da Comunhão, bem como entre igrejas locais, nunca são tão fáceis de determinar. Dito isso, uma unidade superficial, só para manter-se fiel às estruturas formais por consideração, não é o que nós queremos. Isso é o que eu enfatizo profundamente a toda a Comunhão.

Eu acredito que a Província a qual pertencemos, a família da Igreja Anglicana por todo mundo, tem que ser um instrumento do Amor de Deus para o mundo, e isso significa que, procurando estar unidos sempre como uma Comunhão, nós temos que procurar servir a esse propósito, e não a outro qualquer. Então, empenhados em trabalhar através de nossas diferenças dentro de nossa família, nós talvez encontraremos um melhor discernimento para o chamado da Missão. Eu devo dizer que algumas das questões difíceis que nos foram apresentadas nos últimos dias, eram caminhos que poderiam afetar essa Missão numa parte do mundo, por acontecerem em outra.

Então, novamente, nós vemos superficialidade no vasto mundo em que vivemos: um mundo que tem estado no foco de nossas orações nesse momento em que estivemos juntos, e não temos dúvida sobre todo o trabalho que ainda deve ser feito pela Igreja de Deus. E foi para este grande desafio que nós fomos chamados e, a serviço deste chamado, é que nós nos encontramos, deliberamos e buscamos a orientação de Deus. Eu penso que o que resultou foi uma declaração – uma honesta declaração – de onde nós estamos, uma declaração de nossa boa vontade em trabalharmos juntos e um reconhecimento dos obstáculos que temos pela frente, e que ainda enfrentamos, mas, também, algumas sugestões de como nós poderemos enfrentar a todos eles. Obrigado.

Fonte: Serviço de Notícias da Comunhão Anglicana (ACNS), boletim nº 3634.

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Christina Takatsu Winnischofer

Secretária Geral da IEAB